sexta-feira, setembro 29, 2006

Eels




Saint Malo. I need some sleep.
Mother Mary. Flyeswatter.
The only thing i care about.
Susan's house. Souljacker.
Trouble with dreams.
Hey man now you're really living.

Adolfo Casais Monteiro

foto retirada da net




A palavra impossível

Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.

No Doubt

foto retirada da net



It's my life. Sunday morning.
Spiderwebs. Just a girl.
A simple kind of life. Don't speak.

Antonio Gala

foto retirada da net



Llego a los cuarenta
con los mismos miedos
de los diez:
temo a la oscuridad
a los espacios cerrados
y a los ojos negros

Soy sordo de los ojos
no sabía diferenciar
entre un gato que camina
y una manzana verde

Así ando últimamente
entre el ahogo y el vuelo
entre la piel y los olvidos
entre la incertidumbre y

el miedo a la certeza

Cada vez deseo menos cosas
aunque las desee con más intensidad

Sólo quiero un templo
de largas columnas
y labios frescos
Amar en todos los idiomas
en todas las razas
en todas las épocas
en todas las geografías

Como verán
a estas alturas del partido
pido poco:
Amar

quinta-feira, setembro 28, 2006

Beth Orton

foto retirada da net



Concrete sky. Blood red river.
Ooh child. She cries your name.
Conceived. Anywhere.
Shopping trolley.

Lee Carroll e Jan Tober

foto retirada da net


"Gostaria de dizer: "Ouçam-nas"! Siga o seu instinto e desista de tentar ser uma autoridade. Deixe que elas digam de que necessitam. Explique-lhes então por que razão não poderá dar-lhes o que pedem ou pelo contrário por que poderão obter o que estão a pedir. Na verdade, basta ouvi-las. Só isso. As crianças Índigo são muito abertas.

Mais uma vez, estar presente.

Exacto. Se maltratar uma criança Índigo, ela irá denunciá-lo aos professores ou ligará para a polícia ou para o 112. Já deve ter ouvido falar de crianças de dois ou três anos que salvaram os pais por terem ligado para o 112, ou algo do género. Se estas crianças forem maltratadas, irão ter imediatamente com as autoridades. Elas fazem mesmo isso, e nós acabaremos por sofrer.

Gosto de nos considerar como a "Ponte Arco-Íris" que nos liga a eles.

Acho que isso é verdade . As crianças Índigo são a ponte entre a terceira e a quarta dimensão. A terceira dimensão é a dimensão da razão - a dimensão do pensamento. A quarta dimensão é a dimensão do ser. Falamos muitas vezes de conceitos como amor, honra, paz, felicidade e tudo isso, mas raras vezes os pomos em prática. Estamos a melhorar aos poucos. Na quarta dimensão, iremos pô-los em prática. Começamos agora a reconhecer que a guerra é inútil
e que rebaixar alguém é apenas mais uma forma de suicídio. Estas crianças já sabem disso.
No primeiro seminário que fiz sobre o tema Índigo, estavam lá os pais e as crianças. Havia amas para tomarem conta das crianças, uma ama para cada quatro crianças. À tarde, fizemos entrar as crianças e os pais tiveram oportunidade de observá-las a interagir e a fazer perguntas. Tínhamos uma máquina de escrever eléctrica já antiga e colocámo-la no meio do chão, e
outros brinquedos à volta. Não tínhamos um computador para pôr no chão mas, como eu disse, estas crianças são dadas à tecnologia por isso, enquanto uma delas se sentou à frente da máquina, as outras começaram a brincar. Foi uma experiência fascinante.
Havia uma criança que brincava com a máquina, depois aparecia outra que se sentava e ficava a observá-la. Pouco depois, a que estava a brincar com a máquina, levantava-se e ia-se embora - logo outra assumia o seu lugar e, da multidão, logo surgia outra que se sentava e observava. Passavam por aquele ritual como se estivessem numa fila - mas não havia qualquer fila.

Pois, porque estas crianças não fazem fila.

Exacto, e os pais puderam confirmar isso. Apenas uma criança entre 15 foi sentar-se ao colo dos pais. Os outros não lhes deram qualquer atenção.

Em que ano foi isso?

Creio que foi em 1984. Estas crianças...só pedem para serem respeitadas e que as tratem como seres humanos - sem que haja diferença entre crianças e adultos. Há outra história engraçada passada com o meu neto. Ele tinha oito anos e a minha filha não queria que ele brincasse com armas. Não podia ter armas nem brinquedos relacionados com guerra, nem nada electrónico. Quando ele tinha uns três anos, eu estava na casa de banho a enrolar o cabelo - tenho dois ferros de frisar, um a quente e um a frio - e estava a utilizar o quente. Ele pegou no frio e disse: "Bang-bang." Peguei no meu e fiz "Bang-bang". Começámos a correr pela casa, "Bang-bang-bang!"
A minha filha disse-me: "Mãe, não devia brincar com ele dessa maneira", e eu respondi: "Ele é que começou!" E divertimo-nos imenso.
Quando ele tinha oito anos, disse-me que queria um Nintendo como presente de Natal..."



in As crianças Índigo

quarta-feira, setembro 27, 2006

Hoodoo Gurus



Bittersweet. Tojo. My girl.
I want you back. Come anytime.

Hilda Hilst

foto retirada da net





Vamo brincá de ficá bestando

e fazê um cafuné no outro
e sonhá que a gente enricô
e fomos todos morar nos Alpes Suíços
e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando?
Vamo brincá que o Brasil deu certo
e que todo mundo tá mijando a céu aberto,
num festival de povão e dotô?
Vamo brincá que a peste passô,
que o HIV foi bombardeado com beagacês,
e que tá todo mundo de novo namorando?
Vamo brincá de morrê,
porque a gente não morre mais
e tamo sentindo saudade até de adoecê?
E há escola e comida pra todos
e há dentes na boca das gentes
e dentes a mais, até nos pentes?
E que os humanos não comem mais os animais,
e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás?
E que a alma é de uma terceira matéria,
uma quântica quimera,
e alguém lá no céu descobriu
que a gente não vai mais pro beleléu?
E que não há mais carros, só asas e barcos,
e que a poesia viceja e grassa como grama
(como diz o abade),
e é porreta ser poeta no Planeta?
Vamo brincá de teta
de azul de berimbau
de doutora em letras?
E de luar? Que é aquilo de vestir
um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel?
Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?
nave ave moinho e tudo mais serei
para que seja leve meu passo em vosso caminho.*
Vamo brincá de autista?
Que é isso de se fechá no mundão de gente
e nunca mais ser cronista?
Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.

* Trovas de muito amor para um amado senhor - SP: Anhambi, 1959.


in Tô sô, Crónicas, Correio Popular, Campinas, SP

terça-feira, setembro 26, 2006

Smashing Pumpkins

foto retirada da net



Stand inside your love. Zero.
Ava adore. Rocket. Tonight, tonight.
The end is the beginning is the end.

Nicolau Saião




Pessoa Inúmero
Aos Irmãos de H.

O que me interessa em Pessoa (máscara)
seja ele Fernando, Alberto ou Álvaro
é o ar grego e geométrico da sua casa
- casa dos seus versos exteriores -
onde as plantas terrenas, totalmente terrenas
com que enfeitou os seus dias e noites
aguardam sonolentas no calor do dia a música,
as abelhas, a lenta putrefacção
da clara Natureza na noite nascente.
Parece que escrevia bem o inglês
(descobriram isso, embora não seja seguro
depois de falecer) tão bem que os rostos de
Tennyson, Shelley, Whitmann, Shakespeare
e alguns outros indistinguíveis vieram pousar
sobre o seu rosto engelhado:
numa aldeia galesa os habitantes julgam
recordar-se dum fantasma de gabardina
que numa tarde foi segundo consta avistado
por velhos, crianças e amáveis mulheres
andando entontecido pelas ruas sem destino
sombra aqui, sombra acolá
- o que era, aliás, apenas fingimento.
Por cá evidentemente sua-se de novo
o ranho, o esperma e o sangue dos poetas
(carrascão, ginjinha, uísque e soda?)
a sério e a brincar o que dá jeito expressão serenidade.
Algures, num jardim real, o neófito agoniza
ombro com ombro, barba com barba
para que a chama da candeia luza ainda
numa rua onde nunca choverá.
Algures, um laranjal incendeia-se de repente
e as aves partem em bando
mas já frias como dobrada à moda de nenhures.
Numa sala um gato absorto olha o mostrador dum relógio
olha sem entender e numa certa janela
um lenço acena de vez.
E a figura de arame de Pessoa (máscara)
dentro dum automóvel de brinquedo
na velha estrada de Sintra que não existe, nunca existirá
- e por isso, ó minha alma, é bem real -
despenha-se explodindo no coração
do Mundo (ausente).


in “Palavras – sete poetas portugueses contemporâneos


segunda-feira, setembro 25, 2006

Loreena McKennit

foto retirada da net



The bonny swans. Heaven on hearth.
The mummer's dance. Arthas destiny.
Wiccan dance. Lullaby.

Jacques Prévert

foto retirada da net



















O discurso sobre a paz

Já no final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado engasgado
com uma bela frase oca
escorrega
e desamparado com a boca escancarada
sem fôlego
mostra os dentes
e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
deixa exposto o nervo da guerra:
a delicada questão do dinheiro.

tradução de Luís Eusébio


domingo, setembro 24, 2006

Leonard Cohen

foto retirada da net




The gypsy's wife. Democracy.
Because of. In my secret life.
First we take Manhattan.
Suzanne. Dance me to the end of love.

Ary dos Santos

foto retirada da net



O poema original

Original é o poeta que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta noutra espasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras na cama do romantismo.
Original é o poeta capaz de escrever em sismo.
Original é o poeta de origem clara e comum
que sendo de toda a parte não é de lugar algum.
O que gera a própria arte na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz devorar em jejum.
Original é o poeta que de todos for só um.

Original é o poeta expulso do paraíso por saber
compreender o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo versos brancos e ferozes.
Original é o poeta que é gato de sete vozes.
Original é o poeta que chega ao despudor
de escrever todos os dias como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria de ser um homem qualquer.

Shania Twain

foto retirada da net



You're still the one.
Dance with the one that had brought you.
That don't impress me much.
From this moment. Don't.
Man, i feel like a woman.

Chico Buarque da Holanda

foto retirada da net



amando noites afora
fazendo a cama sobre os jornais
um pouco jogados fora
um pouco sábios demais
esparramados no mundo
molhamos o mundo com delícias
as nossas peles retintas de notícias
amando noites a fio
tramando coisas sobre os jornais
fazendo entornar um rio
e arder os canaviais
das páginas flageladas
sorrimos, mãos dadas e inocentes
lavamos os nossos sexos nas enchentes
amando noites a fundo
tendo jornais como cobertor
podendo abalar o mundo
no embalo do nosso amor
no ardor de tantos abraços
caíram palácios
ruiu um império
os nossos olhos vidrados de mistério

sexta-feira, setembro 22, 2006

Diana Krall

foto retirada da net



A case of you. Devil may care.
Under my skin. Love me like a man.
Temptation. East of sun.

Luís Alberto Cuenca



A mal casada
(1987)

Dizes-me que Juan Luis não te compreende, que só pensa nos seus computadores e que não faz caso de ti de noite. Dizes-me que os teus filhos não te ajudam,que só te dão problemas, que se aborrecem com tudo e que estás farta de aturá-los. Dizes-me que os teus pais estão velhos que se tornaram tacanhos e egoístas e que já não és a sua menina como dantes. Dizes-me que já fizeste trinta e cinco e que não é fácil começar de novo, que os únicos homens que conheces são os colegas de Juan na IBM e não gostas de executivos. E eu, o que é que eu faço nesta história? Que queres que eu faça? Que mate alguém? Que dê um golpe de estado libertário? Amei-te como um louco. Não o nego mas isso foi há muito, quando o mundo era uma reluzente madrugada que não quiseste compartilhar comigo. A nostalgia é um passatempo grosseiro. Volta a ser a que foste. Vai ao ginásio, Pinta-te mais, disfarça as tuas rugas e veste roupa sexy, não sejas tonta, que talvez Juan Luis te volte a mimar, e os teus filhos vão para um acampamento e os teus pais morram.

quinta-feira, setembro 21, 2006

The Go-Betweens

foto retirada da net



Clouds. Clock.
Lee Remick acoustic.
Spring rain.
Was there anything i could do?

Mia Couto

foto retirada da net


A dança do peixe-voador

Oceano Índico, Janeiro de 1560

" Minha cara Dia

Escrevo na penumbra quase total do porão onde me

aprisionaram. O escuro até me ajuda: afinal, esta
carta é um adeus. Ou quem sabe, um agradecer aos
deuses? Navegamos entre perigos e incertezas.
Salvámo-nos de fogos e tempestades.
Contudo, esta viagem não se está fazendo entre a

Índia e Moçambique. É sempre assim: a verdadeira
viagem é a que fazemos dentro de nós.
Há ondas movidas por anjos, outras empurradas por

demónios. Quem conduz o barco, porém, não é o timoneiro.
Quem guia o leme é a Kianda, a deusa das águas. É ela que
viaja no quarto do padre. É ela que está dentro da escultura
da Virgem. Eu notei logo à saída de Goa, quando a estátua
resvalou e tombou nas águas. Quando a olhei de frente
confirmei que era ela, a Kianda: os cabelos, a pele clara, a
túnica azul. O que sucedeu é que a nossa deusa ficou
prisioneira na estátua de madeira dos portugueses.
Libertar a sereia divina: essa passou a ser a minha
constante obsessão.
Eu lhe mostrei na noite em que fizemos amor:na popa da

nossa nau está esculpida uma outra Nossa Senhora. Deixo
essa para os brancos. A minha Kianda, essa é que não pode
ficar assim, amarrada aos próprios pés, tão fora do seu
mundo, tão longe de sua gente.
A viagem está quase terminada. Daqui a dias chegaremos

a Moçambique, os barcos tombarão na praia como baleias
mortas. Não tenho mais tempo.
Vão-me acusar dos mais terríveis crimes. Mas o que eu fiz

foi apenas libertar a deusa, afeiçoar o corpo dela à sua forma
original. O meu pecado, aquele que me fará morrer, foi retirar
o pé que desfigurava a Kianda. Só tive tempo de corrigir uma
dessas anormais extremidades. Só peço que alguém mais,
com a mesma coragem que me animou, decida decapitar o
outro pé da sereia.
Agora já não tenho medo nem de morrer nem de ficar morto.
Foi você que me ensinou: a melhor maneira de não morrer
queimado é viver dentro do fogo.

Adeus."


in O outro pé de sereia

quarta-feira, setembro 20, 2006

White Stripes

foto retirada da net



I just don't know what to do with myself.
Jolene. Screwdriver. In the cold, cold night.
Hello operator. Seven nation army.

Nuno Júdice

foto de Stefen Gesell




Filosofia de vida

Não, não é talvez a vida o que
se põe entre mim e ti, talvez contra ambos,
mas de qualquer modo empurrando-nos
um para o outro. A vida é o que
menos importa, neste caso, embora
não haja outras vidas, nem é provável
que as oportunidades se repitam
numa única vida. É a metafísica, a entoação
que se tem de dar às frases quando
o ruído do vento nos toldos da esplanada
apaga o que se quer dizer. A metafísica
do que se perde: aí, o que nem tu
nem eu ouvimos do que nos queríamos
dizer. "Ouve-me, então", digo-te, " o intervalo
entre o amor e a paixão, ou aquilo que
só a hesitação dos dedos pode explicar". Sim,
os dedos que se tocam, por acaso, e
que podem substituir tantas palavras,
e até todo o esforço das nossas vidas. Porém,
demorei-me a acender o cigarro; e tu
mexias o café, no fim do almoço, quando
o vento batia com mais força, insistindo
em afastar-nos.

The Cardigans

foto retirada da net

















Changes. My favourite games.
Rise and shine. Live and learn
Don't blame your daughter.

terça-feira, setembro 19, 2006

Ben Harper

foto retirada da net


Another lonely day.
Burn one down. Amen Omen.
Letterman
. Sexual healing.
Waiting on an angel.

Amalia Bautista

foto retirada da net

Desnudo de Mujer


Para ti nunca fui más que un pedazo
de mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,
un cuerpo de mujer blanco y hermoso,
en el que nunca viste más que piedra
y el orgullo, eso sí, de tu trabajo.
jamás imaginaste que te amaba
y que me estremecía cuando, dulce,
moldeabas mis senos y mis hombros,
o alisabas mis muslos y mi vientre.
Hoy estoy en un parque, donde sufro
los rigores del frío en el invierno,
y en verano me abraso de tal modo
que ni siquiera los gorriones vienen
a posarse en mis manos porque queman.
Pero, de todo, lo que más me duele
es bajar la cabeza y ver la placa:
«Desnudo de mujer», como otras muchas.
Ni de ponerme un nombre te acordaste.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Gibran Kalil Gibran

foto retirada da net



Vossos Filhos

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,
mas não vossos pensamentos.
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles,
mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás
e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos
são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e
vos estica com toda a Sua força para que
suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento
na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
ama também o arco que permanece estável.

Norah Jones

foto retirada da net



What am i to you? Drown on my own tears.
Those sweet words. Don't know why .
I shall be released. I dont want to get over you.
Sunrise.

David Bowie

foto retirada da net



Space Oddity. Blue Jean. Ziggy stardust.
Let's dance. China Girl.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Duran Duran

foto retirada da net



Hungry like the wolf.
Or Girls on film

Maria do Rosário Pedreira

foto retirada da net



Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.
Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.
O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

in A Casa e o Cheiro dos Livros

Michael Jackson

foto retirada da net



The way you make me feel.
Say, Say, Say

Ingeborg Bachman

foto retirada da net



















Tempo adiado

Vêm aí dias mais duros.
O tempo provisoriamente
adiado aparece já no horizonte.
Em breve terás que laçar os sapatos
e prender os cães nos quinteiros.
As entranhas dos peixes terão
arrefecido ao vento. Já se apaga
o fulgor dos tremoceiros.
O teu olhar sonda a névoa:
o tempo provisoriamente
adiado aparece já no horizonte.
Ao longe a tua amada enterra-te
na areia, que lhe cobre os cabelos soltos,
lhe corta a palavra, lhe ordena que se cale,
e a acha mortal e disposta ao adeus
depois de cada abraço.
Não olhes para trás. Aperta os sapatos.
Corre com os cães. Atira ao mar os peixes.
Apaga os tremoceiros! Vêm aí dias mais duros.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Dave Mathews and Tim Reynolds

foto retirada da net

So many. All great.

Fiona Apple

foto retirada da net



Paper bag. Or Sleep to dream.
Extraordinary machine.

Lambchop

foto retirada da net


Is a Woman.

Calexico

foto retirada da net



Cruel.

Stanley Clarke e Jean-Luc Ponty

foto retirada da net



Duelo ganho por nós.

Paco de Lucia, Al Di Meola e John McLaughlin

foto retirada da net



Universos à parte. Enjoy it.

Caetano Veloso

foto retirada da net



Cucurucucu paloma.
Presença no filme de Almodovar:
Fala com ela.

Kristin Hersh and Michael Stipe

foto retirada da net


Hersh Grotto. Your ghost

Grant Lee Buffalo

foto retirada da net



This is life. Fuzzy.

Ada Salas

foto de Jorg Dustervald


La casa...


La casa que abrigó tu corazón
será una ruina. Furtivos
en la noche
la habéis abandonado.
Oscura en el jardín la tierra removida.
Quise
decir traición


y dije llanto.

Terry Callier

foto retirada da net



Total Recall. Candyman.
Try Occasional rain

quarta-feira, setembro 13, 2006

W. B. Yeats

foto retirada da net


A DRINKING SONG

Wine comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That's all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh.

Vasco Graça Moura



Duas mulheres em Novembro

Num consultório manhoso de um bairro lisboeta, duas mulheres esperam a chegada do médico, em Novembro de 1975. Nas ruas cheias o ambiente é tenso e sucedem-se as manifestações, naquela sala lúgubre elas estão sós consigo próprias, aguardando a hora de ser atendidas. A segunda a chegar mete conversa e descobre conhecer a sua ocasional "parceira": ambas são do Porto, da Foz, de classe social muito diferente ( a mãe de uma trabalhou para a mãe de outra) e com percursos de vida completamente distintos. E são estes percursos que, afinal, no fundo, também têm muito em comum, é o "retrato" mais íntimo das duas mulheres, que o leitor vai descobrindo através de magistrais diálogos, pungentes e divertidos, entre ambas - e, em simultâneo, interiores. Enquanto o médico não chega - e acabará mesmo por não chegar...


in Contos Inéditos




Vasco Graça Moura

foto retirada da net


ofício de morrer

eu imagino assim a morte de pavese:
era um quarto de hotel em turim,
decerto um hotel modesto, de uma ou duas
estrelas, se é que havia estrelas.
uma cama de pau, de verniz estalado,
rangendo de encontros fortuitos, um colchão mole e húmido
com a cova no meio, a do costume.
corria o mês de agosto com sua terra escura
encardindo as cortinas. nada ia explodir
naquele mês de agosto àquela hora da tarde
de luz adocicada. e alguém pusera
três rosas de plástico num solitário verde.
vejo como pavese entrou, como pousou a maleta
com indiferença, dobrou alguns papéis
e despiu o casaco (como nos filmes
italianos da época). depois foi aos lavabos
no corredor, ao fundo. talvez tenha pensado
que esta vida é uma mijadela ou que.voltou ao quarto, havia
uma fétida alma em tudo aquilo.
ele abriu a janela
e pediu a chamada telefónica.
a noite ia caindo sem palavras, memo sem businas
excessivas. encheu um copo de água. e esperou.
quando a campainha tocou, havia muito pouco
a dizer e ele já o tinha dito:já tinha dito quanto amar nos torna
vulneráveis; e míseros, inermes;
que é precisa humildade, não orgulho;
e parar de escrever;e que dessa nudez é que morremos.
foi mais ou menos isto – a nossa condição
demasiado humana, a voz humana, a frágil
expressão disso tudo, uma firmeza tensa.
«e até rapariguinhas o fizeram».tinham nomes obscuros e nenhum
remorso lancinante, ninguém pra falar delas.
a mais temida coisa é a coragem
do que parecia fácil: tudo o que não se disse
carregado num acto de súbitas fronteiras.
foi mais ou menos isto. não sei se ele a seguir
pôs do lado de fora um letreiro
com do not disturb ou coisa assim,
nem se tomou as pastilhas uma a uma, ou se as contou.
não sei se o encontrou uma criada,
se a polícia veio logo, se deixou uma carta
ao seu melhor amigo, se apagou a luz,
nem se pousou ao lado a carteira, o relógio, a esferográfica.
não sei se entrou na morte como quem
traz imagens pungentes na cabeça,
palavras marteladas de desejo, ou como quem friamente
está no avesso do sono e vai calar-se e é justo.
não sei se foi assim, se existe uma outra
verdade imaginável ou vedada. sei que ele tinha
um olhar decidido, alguma instigadora, e quarenta e dois anos,
e sei que nessa altura há já poucas verdades
e nenhuma dimensão biográfica na morte.
já vem nas escrituras. eu prefiro
dizer que ele fechou a porta à chave
e sei que era viril a sua transparência.

terça-feira, setembro 12, 2006

Sandor Csoóri

foto de Jorg Dustervald


A Hidden Self-Portrait

They took me for a Gypsy? I let them.
For a Cumanian? a Spaniard? a Tartar?
I just smiled with slit eyes:
inside me, a flock of birds was flying about.

And I was the wing, too, and the sky, too,
a face beyond my face in the blue;
my fist in the Moon: a cramped fetish,
an angry Negro god in the myths.

What I had been through: that was me,
different pleasures, different woes each day;
in the vicinity of death there's a lot of wind,
summer-swishing and a flood of snow,

bones of armies dug up
there, where the chamomile-filled meadows
look back, remembering and revolted
into winters with cannons.

The forest of Bakony at my back,
Prague and Warsaw's forehead light,
one-thousand-year-old rain walks
before me in an end-of-May night

and I get drenched in it, soaked to the bone,
a rumpled man with peonies;
the next day's wind replaces
my wanderer's face with a sunny sky.


translated by Len Roberts and Mária Szende

José António Gonçalves

foto pessoal in Samba-me um Jazz Morno



neste texto aflitivo

verdes eram os guerreiros, dizia.eu era branco e calmo, apodrecia
numa masmorra de poemas, com uma grossa algema de palavras
nos braços, amaldiçoando as horas e os livros. uma corda imensa
de ritmos crescia-me no pescoço. contemplava então desvairado a
cidade-colmeia, ao fundo dos olhos, num verbo de montanhas.
funchal vermelho e transparente de cal, magoado por estar junto ao mar.
verdes eram os guerreiros, dizia. aqui, no cinzento desta cela,
con-venço-me de que se há alguém que se lamente, por percorrer as
pessoas e as ruas, palmo a palmo, não serei eu, com certeza.
lembro--me que gritava: sou roxo e morro nos poentes; tudo o que é de
outra cor - rosa e azul, por exemplo - tem a minha paixão e os meus
versos. então entretenho-me a julgar os outros, objectos desconhecidos
deste longo museu. agora recordo nomes. os nomes que, para mim, só por
si, por estarem longe da carne, pouco significam.
penso nalguns e choro numa muda sinfonia de gestos. e depois penso
que os amo. marco. arabela. delicio-me na sua familiaridade
que crio e retraio-me: os nomes não têm cor. são simples cartões,
diagramas da esperança. rio-me destas palavras e saio para a ave-nida.
saio de mim mesmo e piso o alcatrão dos beijos, contando os
escarros e os passos, conforme empreendo caminhadas. bato a todas
as portas com a poesia nos olhos bem abertos, incendiando os ca-belos.
alguém as vai abrindo, com flores de luto nos sorrisos. eu
recomeço: verdes eram os guerreiros, após fartas batalhas, nos
campos da história. verdes eram as suas vidas, os seus amuletos, os
seus rostos amolecendo ao sol, nas tardes da memória fraca, nos
segundos do estudo. branco era eu, nos gemidos do sonho, pensando
novas metáforas, construindo este ingénuo texto aflitivo, onde a
palavra amor é interdita e afagada.





Manuel Maria

foto retirada da net


ter e haver


Tu valeste trinta e duas poesias,
nem mais nem menos,
quatro noites mal dormidas, uma única foto,
meia duzia de rosas,
quatro livros por correio,
outro em mão,
seis encontros sem assunto,
cinco abraços,
fora os beijos.


Agora digo-te quanto me custaste:
Tu custaste uma rodada de superbock's,

três despedidas adiadas,
outra consumada, vinte mensagens escritas,
cinco telefonemas,
nenhum beijo em despedida,
uma pequenina dor de quatro semanas,
saudades, nenhumas!

José Gomes Ferreira

foto retirada da net



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados,
fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...(primeiro, os olhos...
em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...como aquela nuvem além
(vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...