quinta-feira, setembro 07, 2006

António Lobo Antunes

foto retirada da net


Todos Os Homens São Maricas
Quando Estão Com Gripe


Pachos na testa terço na mão
uma botija chá de limão
zaragatoas vinho com mel
três aspirinas creme na pele
grito de medo chamo a mulher
ai Lurdes Lurdes que vou morrer
mede-me a febre olha-me a goela
cala os miúdos fecha a janela
não quero canja nem a salada
ai Lurdes Lurdes não vales nada
se tu sonhasses como me sinto
já vejo a morte nunca te minto
já vejo o inferno chamas diabos
anjos estranhos cornos e rabos
vejo os demónios nas suas danças
tigres sem listras bodes de tranças
choros de coruja risos de grilo
ai Lurdes Lurdes que foi aquilo
não é a chuva no meu postigo
ai Lurdes Lurdes fica comigo
não é o vento a cirandar
nem são as vozes que vêm do mar
não é o pingo de uma torneira
põe-me a santinha à cabeceira
compõe-me a colcha fala ao prior
pousa o Jesus no cobertor
chama o doutor passa a chamada
ai Lurdes Lurdes nem dás por nada
faz-me tisanas e pão de ló
não te levantes que fico só
aqui sozinho a apodrecer
ai Lurdes Lurdes que vou morrer.

Sem comentários: