quarta-feira, setembro 06, 2006

Inês Pedrosa

foto retirada da net

Podemos amar no escuro, sim, podemos amar na luz sonâmbulo da ausência, podemos tanto que inventávamos Deus. Tu dizias que Deus era o teu personagem de ficção favorito. Mas não querias entender que os personagens de ficção existem tanto como tu. Às vezes, muitas vezes, existem mais do que tu. Lê-me o fim da Ressurreição do Tolstoi, diz-me que a Maslova voltou a ser Katiucha, de vestido branco com uma fita azul, entre círios, na noite ardente dessa missa de Páscoa em que Nekliudov a amou na sua inamovível eternidade.
Lê-me os textos dessa Maria Zambrano que eu te ensinei a amar, diz-me que 'O coração é o vaso da dor' e entorna o teu sangue no meu coração morto que não consegue morrer. Ainda não aprendeste tudo, demorado amigo. Ainda não aprendeste a matar-me. Os outros arrumaram-me no cemitério luminoso dos telejornais, com loas à minha dignidade. Que a Fama lhes seja leve - cá estarei para lhes perdoar em paz esse minuto de glória. Fica tão bem no écran, a pena dos mortos. Porém, no fim desse breve espaço publicitário a que chama vida, todos virão aqui parar. O microfone em torno de ti: 'Sei que é um momento difícil, mas disseram me que era um dos seus melhores amigos'. Confirmaste: 'É por isso mesmo que não falo dela. Continuarei apenas a falar com ela'.

in Fazes-me Falta

2 comentários:

James Cobain disse...

Já li este obra "Fazes-me Falta", foi-me indicada e emprestada por uma boa pessoa e gostei muito e se poderem leiam..........

innername disse...

eu ja li. mas existem muitas outras
que nos prolongam a vista noutros entardeceres que não os nossos. Obrigado pela passagem por aqui.