terça-feira, setembro 12, 2006

José António Gonçalves

foto pessoal in Samba-me um Jazz Morno



neste texto aflitivo

verdes eram os guerreiros, dizia.eu era branco e calmo, apodrecia
numa masmorra de poemas, com uma grossa algema de palavras
nos braços, amaldiçoando as horas e os livros. uma corda imensa
de ritmos crescia-me no pescoço. contemplava então desvairado a
cidade-colmeia, ao fundo dos olhos, num verbo de montanhas.
funchal vermelho e transparente de cal, magoado por estar junto ao mar.
verdes eram os guerreiros, dizia. aqui, no cinzento desta cela,
con-venço-me de que se há alguém que se lamente, por percorrer as
pessoas e as ruas, palmo a palmo, não serei eu, com certeza.
lembro--me que gritava: sou roxo e morro nos poentes; tudo o que é de
outra cor - rosa e azul, por exemplo - tem a minha paixão e os meus
versos. então entretenho-me a julgar os outros, objectos desconhecidos
deste longo museu. agora recordo nomes. os nomes que, para mim, só por
si, por estarem longe da carne, pouco significam.
penso nalguns e choro numa muda sinfonia de gestos. e depois penso
que os amo. marco. arabela. delicio-me na sua familiaridade
que crio e retraio-me: os nomes não têm cor. são simples cartões,
diagramas da esperança. rio-me destas palavras e saio para a ave-nida.
saio de mim mesmo e piso o alcatrão dos beijos, contando os
escarros e os passos, conforme empreendo caminhadas. bato a todas
as portas com a poesia nos olhos bem abertos, incendiando os ca-belos.
alguém as vai abrindo, com flores de luto nos sorrisos. eu
recomeço: verdes eram os guerreiros, após fartas batalhas, nos
campos da história. verdes eram as suas vidas, os seus amuletos, os
seus rostos amolecendo ao sol, nas tardes da memória fraca, nos
segundos do estudo. branco era eu, nos gemidos do sonho, pensando
novas metáforas, construindo este ingénuo texto aflitivo, onde a
palavra amor é interdita e afagada.





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