quarta-feira, setembro 20, 2006

Nuno Júdice

foto de Stefen Gesell




Filosofia de vida

Não, não é talvez a vida o que
se põe entre mim e ti, talvez contra ambos,
mas de qualquer modo empurrando-nos
um para o outro. A vida é o que
menos importa, neste caso, embora
não haja outras vidas, nem é provável
que as oportunidades se repitam
numa única vida. É a metafísica, a entoação
que se tem de dar às frases quando
o ruído do vento nos toldos da esplanada
apaga o que se quer dizer. A metafísica
do que se perde: aí, o que nem tu
nem eu ouvimos do que nos queríamos
dizer. "Ouve-me, então", digo-te, " o intervalo
entre o amor e a paixão, ou aquilo que
só a hesitação dos dedos pode explicar". Sim,
os dedos que se tocam, por acaso, e
que podem substituir tantas palavras,
e até todo o esforço das nossas vidas. Porém,
demorei-me a acender o cigarro; e tu
mexias o café, no fim do almoço, quando
o vento batia com mais força, insistindo
em afastar-nos.

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