domingo, setembro 10, 2006

Nuno Travanca

foto retirada da net



de dia não nos podemos viver

de dia não nos podemos viver.
só na ausência dos outros podemos realmente ser nós próprios,
e mesmo assim nem sempre.
a minha janela dá para uma rua de mar.
só com ondas exangues de gente.
uma ou outra vez reparo existir ,
vivo na cidade e observo.
não é próprio , mas é da minha janela verde , cesariana , que o faço.
sobrevivo, sim.
e tem uma grade pouco segura, a minha janela,
que tento provocar a cada vez que me apoio nela.
persiste intacta, se calhar o meu único limite.
é , azimutes fica mesmo ali ao lado ,
particularmente quando ouvimos um poeta urbano como o jorge.
somos de longe, mais ainda quando estamos perto ,
contemplamos , vivemos como as mulas a que chamamos bois
e apreciamos os pormenores dos palácios numa rua,
noutra rua, e ainda noutra.
estamos aqui por necessidade e não por opção.
afinal, tudo tem o seu sentido. deve ser qualquer coisa destas ,
de uma música fantástica com passos em volta.
arriscaria um voo de flamingo,
mas na cidade confundo-os muito com os néons estridentes
que nos assaltam o campo de visão. nos poluem os olhos.
no entanto, poderia eu viver sem a intermitência das farmácias de serviço ?
tenho muitas e algumas dúvidas.
quem sabe um dia, quem sabe um dia exaspere de vez.
busque as luzes noutra ribalta.
falta de engenho e arte
ou distorcida a habilidade focada noutras apetências mundanas.
os lugares nunca seriam feridas em cesário.
e se fossem seriam rubras.
a umbria jamais seria umbria ,
seria talvez um beco afamado com tons de cinza e odores pútridos.
mas , e na rua , na própria umbria quando nos cruzamos com outros.
algumas não são pessoas , não é ?
temos a esperança, pelo menos de que não sejam.
algumas são malmequeres
e arquitectos de cafés inertes, por existir.
a temperança de alguns olhares existe.
não podem mentir, os olhares.
só as palavras mentem ,
os beijos homicidas que nos dão envenenados.
e sim , há teorias de pavlov aplicáveis aos que nos rodeiam.
aos que partem , e deixam as irmãs , mães e filhas por definir.
choramos o mundo, e os que nele amamos.
que são cada vez menos em inversa relatividade com os nascimentos.
e é a água um recurso escasso , então e os olhares que nos sorriem ?
que se repetem nas nossas palavras mais verdadeiras ?
calai-vos e bebei!
achei que estava a ser inoportuno ou indigesto ,
é que não paguei a nenhum portageiro para entrar.
poderia estar a agir de forma ilícita ,
pôr-me em fuga seria o próximo passo não rebentassem os pirilampos policiais
e os sons de perseguição tão correntes na cidade. e tão insossos.




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