sábado, outubro 14, 2006

Gibran Kalil Gibran

foto de Robert Farnham




O LOUCO


Perguntais-me como me tornei louco.

Aconteceu assim:
um dia, muito tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo
e notei que todas as minhas máscaras
tinham sido roubadas
- as sete máscaras
que eu havia confeccionado e usado em sete vidas
-e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando:
"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

Homens e mulheres riram de mim
e alguns correram para casa, com medo de mim
e quando cheguei à praça do mercado,
um garoto trepando no telhado de uma casa gritou:
"É um louco!".
Olhei para cima, pra vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.
E, como num transe, gritei:
"Benditos, bendito os ladrões
que roubaram minhas máscaras!"
Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade
como segurança em minha loucura:
e a segurança de não ser compreendido,
pois aquele desigual que nos compreende
escraviza alguma coisa em nós.

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