segunda-feira, outubro 16, 2006

Herberto Helder

foto retirada da net


360 graus

Era uma velha mãe em fundo de jarrão verde com aplicações de latão, flores fabulosas devidamente domesticadas.
Também havia uma pêndula ressoante por onde o tempo se introduzia nas pessoas.
Este quarto dura desde as origens da vida - penso.
Foram entrando nele, como pequenas correntes tranquilas, os minutos dos séculos.
Minha mãe é tão velha diante da mesa oval de pau-santo.
Todas as mães são velhas.
Vejo isso de repente, quando ainda imagino a tenacíssima doçura que se desenvolve do núcleo central da sua beleza.
Felizmente não se pode assistir ao vagaroso envelhecimento de uma pessoa.
Vê-se tudo de uma só vez. É quando já somos cépticos.
Vê-se que todas as mães caem de podres.
A velhice começou pelo meio, algures, num sítio obscuro. No seu amor.
Ou no pânico que acompanha esse amor. Quando as mães estão velhas, encontramo-nos absolutamente sós.
Vou-me embora - declarei eu. Podemos então correr mundo.
É-nos dado sofrer à vontade; ser alegres, violentos e loucos; fugir; amar todas as coisas como
se estivéssemos perdidos para sempre. (...)

2 comentários:

joão marinheiro disse...

Gosto de Herberto...Abraços

innername disse...

eu tb :)
Obrgd pela visita