quarta-feira, agosto 08, 2007

Good Charlotte




Predictable. I just wanna live. The river. The anthene.

Urhacy Faustino




Inversão de valores


Na minha infância não conheci moeda, senão o celeiro cheio e as vacas gordas.
Precisava de roupa trocava algodão por fazenda. Carecia de aliança trocava o trigo pelo ouro.
E éramos felizes!
Meus irmãos iludiram meus pais com a visão dos novos tempos e modernizaram tudo. Saíram das tetas das vacas direto para as teclas dos computadores: não conseguiram ordenhar as máquinas.
Hoje trocamos dívidas.



segunda-feira, junho 04, 2007

Elliott Smith




Miss Misery. Christian Brothers. Twilight.
Thirteen. Coming up roses. Between the bars.
Needle in the hay. Angeles. Say yes. Waltz.


Isabel de Sá



Realidade


Por causa de um livro
vieste ao meu encontro.
Era Verão, não sabias de nada
nem isso interessava. Palavras
amavam-se fora de ti,
no atropelo das emoções.
Lá chegaria a primeira vez,
o encontro apressado num lugar
público. Desfeito o erro
ao toque da pele, não sei
se havia medo, a paixão queria-me
no lugar exacto do teu coração.
Palavras enrolam-se na sombra
da vida a dor do sentimento.

Atingido o espírito, o tempo
da infância, a realidade. Em ti
a solidão que o prazer
não mata. Quero a beleza
dos versos revelada.
Alguns anos passaram sobre
a nossa história que não acabou.
A tarde envelhece e escrevo isto
sem saber porquê.

in Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa

sexta-feira, maio 11, 2007

Lenny Kravitz





Alice Duarte




Poema de mim

Ah, se soubesse fazer um poema
De métrica incerta
Sem rima, sem tema
Palavras sentidas, sabidas
Rentes à terra vermelha da alma
Poema cristal comigo espelhada
Um jorro de versos no dia real
Grito de vida em letras rasgadas
Ah, se soubesse
Gravar nas palavras aquilo que sinto
Dizer o que calo e, calando, minto
No verbo encarnar horas que vivi
Das mãos abertas faria brotar
Um poema único de mim para ti.

segunda-feira, abril 16, 2007

Badly Drawn Boy




Silent sigh. You're right.
Born In The U.K.
Year of the rat.

Eugénio de Andrade




Lettera amorosa



Respiro o teu corpo:sabe a lua-de-água
ao amanhecer,sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,sabe à minha boca.

domingo, fevereiro 04, 2007

Mercury Rev


Opus 40. Night and fog.
Goddess on a highway.
In a funny way. Diamonds.
Tonite it shows. The dark is rising.
Chasing a bee.

Geraldo Eustáquio Ribeiro




Francisco do Mundo


De repente, dia e noite se fundiram,
e o céu se cobriu com um manto negro
parecendo estar de luto e derramou
lágrimas em forma de pingos.
Deixou a tristeza correr
em forma de vento que balançava
as poucas arvores que ainda resistem
deixou o relâmpago atravessar
suas entranhas mostrando a fraqueza
do homem que vasculha o espaço
e não consegue domar o raio.
Que cai onde quer ou no ponto mais fraco
da terra
agredida
ferida
pelos agrotóxicos do rio agonizante
de peixes mortos
da mata derrubada
em nome do progresso que trás riqueza
para poucos
escravidão para alguns
e pobreza para muitos.
Que não aprenderam
ou são proibidos conservar a vida
para seus filhos
para os filhos dos seus filhos
Que não sabem
até quando a ignorância vai permitir
a continuidade da raça
Que deixou de ser humana
ao não respeitar a mãe terra
o irmão sol
a irmã lua
Como dizia Francisco,
não só de Assis,
mas do mundo.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Eric Clapton


Cocain. Tears in Heaven.
Wonderful tonight. Layla.
Change the world. Alberta.
The thrill is gone. Something.
I shot the sheriff. Old love.
Little wing. My father's eyes.
Motherless child. Crossroads.

Cecília Meireles




4o. Motivo da rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

domingo, janeiro 21, 2007

Cesária Évora




Sodade Athens. Petit pays.
Sódade. Embarcação.
Yomore. Mar azul. Velocidade.

Al Qabri Ramos




Cesteira da montanha

Atas-me a voz
quando incendeias palavras na ira
quando vomitas, sem cura
fazendo do meu peito a mira,
o alvo desse ódio incerto.

Liberdade começa no teu grito.
Na minha escolha pelo silêncio.
ata-me a voz,mas nunca conseguirás
calar o meu pensamento.

Ele virou as costas.
A cesteira da montanha
mais uma vez tinha razão.
A mulher resgatou
um punhado de terra
e soltou ao vento.

Não gostava da vitória das palavras.
Só dos derrotados.
Por eles nutria ternura.
Calava-se, então.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Mark Lanegan


Hit the city. Ramblin man.
House a home. Ugly Sunday.
Wedding Dress. Ressurection Song.
I'll take care of you. No easy action.


Felipe Fortuna




Ou vice-versa


Tenho pena dos pobres, dos aleijados, dos velhos
Tenho pena do louco Neco Vicente
E da Lua sozinha no céu que,
embora assemelhe-se aos poetas da lavra marginal,
pertence a Jorge de Lima - com uma ressalva, porém:
quando a escreveu, ele tinha apenas 9 anos de idade.
Freud afirmava que toda criança é um perverso polimorfo -
e deve estar certo, pois

pelo menos em poesia as infâncias se confundem.


in Ou vice-versa