quarta-feira, setembro 30, 2009

Jorge Santiago




A BORBOLETA (estória infantil)

I
Podia ter sido um gato,
mas não era.
Era uma borboleta que gostaria de ter sido um gato,
mas não era.
Mesmo assim, miava com altivez,
afiava as unha nas pétalas da flores,
marcava território com o pó das suas asas
e perdia-se por uma suculenta cabeça de peixe.
Desdenhava sobranceiramente a função
polinizadora que a natureza lhe cometeu.
Preferia vagar com displicência felina
pelos quintais dos vizinhos.
Gostava de música suave, naturalmente,
nada de punks ou metals históricos ou alternativos
que lhe eriçavam os bigodes-antenas.

II
Corria-lhe a vida assim … como dizer ,
sem grandes sobressaltos,
ora mais felínica
ora mais borbolética,
mas não era feliz,
a borboleta,
faltava alguma coisa na sua vida.
Ultimamente dava por si,
entre um voo e um salto,
sentada sobre os quartos traseiros
olhando a lua.
Sentia que a alma gémea,
aquilo de que falam os poetas
que nunca se apaixonaram,
não tinha aparecido.

III
Até que certo dia,
um dia igual aos outros,
por pouco não chocou em pleno voo
com uma ave de respeitável porte!
Bico algo adunco,
plumagem de tons marron-cinza,
postura autoritária mas insinuante.
Poderia ser milhafre ou falcão,
não sei, mas certamente predadora.
Apresentou-se de forma civilizada
como sendo um pombo.
Pombo, filho de pombo e neto de pombo.

IV
Sem estrelas explodindo nem o chão estremecendo,
conversa puxou conversa,
gostos dos mesmos gostos
mais almoço menos jantar,
alguma coisa começava a surgir.
O pombo dizia que trabalhava num pombal,
era chefe por sinal,
e decidiram juntar os destinos,
a borboleta e o pombo
(ou milhafre ou lá o que era).

V
Algum tempo passou,
dias melhores dias piores,
tropeção de um lado,
empurrão do outro,
e o pombo cada vez se afirmava mais milhafre.
Cada dia rasgava um pouco das asas da borboleta
e cortava-lhe com rigor as unhas rente,
obliterando decididamente os restos
que restavam do felino que em tempos
habitou na borboleta.

VI
Até que o milhafre,
agora bem assumido,
proibiu terminantemente a borboleta de voar.
(agora, digam-me os leitores,
como se pode proibir uma borboleta de voar?)

VII
A pobre borboleta definhava, definhava,
mais parecia uma larva.
Certo dia de total desespero
em que a borboleta pensava,
entre triste e revoltada,
no seu triste destino,

Final A Final B
viu pousar na beirada da janela viu assomar à beirada da janela
uma borboleta dourada um belo gato dourado
que lhe disse: que lhe disse:
“Voa, borboleta, voa “foge, borboleta, foge,
que o sol espera por ti!” que o mundo espera por ti!”


foto de Lúcia Inês Araújo in Passo Preto
poema proseado em jeito de estória de Jorge Santiago aqui

sábado, setembro 26, 2009

World Citizen

David Sylvian.

Voices heard in fields of green
Their joy, their calm and luxury
Are lost within the wanderings of my mind
Im cutting branches from the trees
Shaped by years of memories
To exorcise their ghosts from inside of me

The sound of waves in a pool of water
I'm drowning in my nostalgia.

terça-feira, setembro 22, 2009

Paula Rêgo na Câmara Clara




Tragédia pintada de um povo contador de histórias. Vale bem a mostra de trabalhos e a entrevista em vídeo da Casa de Histórias no Estoril, para quem a artista doou 257 pinturas e emprestou mais de 100 desenhos seus. Fala de épocas distintas, de pessoas e valores, de mágoas e factos vividos, a par com a sua dificuldade de ser aceite. De auto-retratos, de fantasias misturadas com vivências, de medos e mimos, de vinganças e papões. O vómito de Salazar, o referendo do aborto, as hipocrisias e a política, a sexualidade e, para breve, as mutilações clitorianas. Paula homenageia, por assim dizer, a Fundação Gulbenkian que sempre recebeu com entusiasmo o seu trabalho. Assume-se portuguesa universal londrina ;)

Clicando no título do post, terá acesso á entrevista possível conduzida pela jornalista do Câmara Clara, da Rtp2, Paula Moura Pinheiro. A pintura é uma forma de dar rosto á reivindicação e intervenção de políticas e ferramenta anti-políticas.

domingo, setembro 20, 2009

Miriam Makeba



Soweto Blues.
Miriam Makeba enlutou um continente para sempre e, quem sabe, outros continentes, por contágio ao amor que ela punha na música, na intervenção, na luta pela igualdade e justiça de um anti-apartheid. Mais do que cantora isolada, ela era tida como Mama Africa. E o amor era recíproco. Temas como Khawuleza, Click Song, Pata Pata, Mbube e tantos outros serão referências, certamente permanentes que farão parte da história da música africana e do mundo. Morreu em Itália, no passado 10 de Novembro mas a sua voz pode continuar a ouvir-se muito graças á divulgação feita pelo seu próprio talento e um outro tanto aos meios tecnológicos cada vez mais avançados que permitem tal partilha. Youtube tem algum do trabalho dela armazenado em videos, mas existem em dvd's tournées e espectáculos, assim como em cd's que a perpetuarão em nome de África, das lutas por valores humanitários e da música, universo indispensável á humanidade mais instintiva em nós. A Wikipédia e tantos outros sites fazem biblioteca e escrevem história com os dados da sua vida, melhor do que eu que não passo de uma apaixonada pelo mundo dos sons.

sexta-feira, setembro 18, 2009

António Cícero



Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não
se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto
é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é,
velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela
ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que pássaros sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se
declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.


Sobre António Cícero e disponibilizado na Wikipedia:

Antonio Cicero Correa Lima [1] (Rio de Janeiro, 1945) é compositor, poeta, filósofo e escritor brasileiro.
Estudou
Filosofia na UFRJ; posteriormente, graduou-se na Universidade de Londres e pós-graduou-se nos Estados Unidos. Passou a lecionar Filosofia e Lógica, em universidades do Rio de Janeiro.
Escreve
poesia desde jovem, mas seus poemas só apareceram para o grande público quando sua irmã, a cantora e compositora Marina Lima passou a musicá-los. Antes, porém, já eram suas canções como Fullgás, Pra Começar e À Francesa, as duas primeiras em parceria com sua irmã, e a última com Cláudio Zoli. A partir de então, Cicero tornar-se-ia um dos mais próximos parceiros de Marina. Entre outras parcerias, destacam-se aquelas com Waly Salomão, João Bosco, Orlando Moraes, Adriana Calcanhotto e Lulu Santos (co-autor, junto com Antonio Cicero e Sérgio Souza, do hit O Último Romântico, de 1984).
Em
1982, participou de Tabu, filme de Júlio Bressane.
Em
1995, publicou O Mundo Desde o Fim, uma reflexão sobre a modernidade. Ganhou o Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira na categoria estreante, com o volume poético Guardar. Lançou também um CD em 1971, Antonio Cicero por Antonio Cicero, onde recita seus poemas. Em 2002, participou, junto com outros artistas como Gabriel, O Pensador, Chico Buarque, Ronaldo Bastos, Fernando Brant entre outros, de uma coletânea de quatro CDs em homenagem ao poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade.
É colunista do jornal
Folha de S. Paulo.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Mazzy Star





Mazzy Star é uma banda de rock americano alternativo, com formação inicial em 1989, em Santa Mónica. David Roback (o guitarrista), Kendra Smith (guitarra baixo), Hope Sandoval (vocalista), Jill Emery (o guitarra baixo actual, depois do abandono de Smith), Keith Mitchell (bateria e percussão) e William Cooper nos teclados e violino), estes os actuais membros da banda que se consagrou, pode dizer-se, através do excelente tema Fade into you. Um rock alternativo com registos de folk, psicadélico, indie, acústico e pop ligeiro e nos faz ficar atentos para uma alternativa abençoada. Entre o trabalho desenvolvido pela banda, devem nomear-se albuns como:

She Hangs Brightly,

So Tonight That I Might See

Among My Swan