segunda-feira, outubro 25, 2010

Thievery Corporation





Ruy Duarte de Carvalho

"Naquele ano a chuva foi excessiva e cresceram tortulhos"

Naquele ano a chuva foi excessiva e cresceram tortulhos
no olhos dos cães. Os vitelos, ao espreitar a luz pelos
sexos das mães, afogavam-se em lama, no meio dos
sambos. As paredes das casas diluíam-se em nata e os
oleiros desistiram de encomendar a sua obra a Deus.



Enormes cuidados foram inventados para proteger o fogo
nos altares e as crianças adotaram a nudez.
As termiteiras deixaram de existir e as formigas aladas
perderam as asas. Os pés dos mais velhos fenderam-se em
chagas e as mamas das virgens, mal eram tocadas,
colavam-se aos dedos como cinza úmida. Os lábios dos
sexos das mulheres paridas inchavam carnudos de uma
carne branca e os ventres pendiam como fruta mole.
Naquele ano a chuva foi excessiva
e os horizontes deixaram de existir.

Choveu por muito tempo até os cães perderam todo o pêlo
e as cabeleiras se destacarem como algas podres. O rei do
Jau ficou colado ao trono e ao boi sagrado cresceram-lhe
os olhos, que depois cegaram. As sementes grelaram nos
celeiros e essa semente assim era servida aos homens e
daí lhes ocorreu um tal vigor que os seus pênis cresceram
desmedidos e os homens vacilaram, tendo-os nas mãos e
mudos de fascínio.

A chuva choveu tanto que as serpentes saíram dos
buracos e vieram alongar-se ao pé dos paus, mantendo
com esforço as cabeças erguidas. Nas terrinas do leite
vicejaram musgos e o leite das vacas alterou-se em soro, a
coalhar na urina. Naquele ano a chuva choveu tanto que
até nos areais cresceram talos e as enxurradas
produziram peixe e até o ferro se lavou sozinho e os
diamantes vieram rebolar nas pedras concavadas de moer
farinha. As próprias aves morreram quase todas e apenas
se salvaram as de penas brancas, que a distância atraiu,
depois comeu.
E aquela chuva aproveitou aos fósseis e houve minerais
que se animaram e até pedras comuns a transmudar-se em carne.

Naquele ano a chuva choveu tanto que a memória perdeu
todo o sentido. As gargantas entupiram-se de limos
e as testas que os velhos pousavam nas mãos fundiam-se aos dedos
e os braços às pernas e os gestos de graça fundiam os
corpos e as jovens crianças ficavam coladas ao peito das mães.
Só as bocas teimavam em manter-se abertas e quando
mais tarde a chuva parou, das bocas saíram grossas
aves negras que abalaram logo daquelas paragens. E a
seca voltou e o mundo secou. A carne antiga a dar-se
agora em terra, os fósseis em pedra e as ramas em húmus.
E os passos poliram pouco a pouco as formas.

Naquele ano a chuva choveu tanto
que a memória nunca mais teve sentido.

(Sinais misteriosos... Já se vê...)

terça-feira, setembro 14, 2010

domingo, agosto 29, 2010

Os Nkali's, enviés de histórias, na construção de estereotipos


O perigo da história Única, na construção do pensamento enviesado que conduz aos imensos preconceitos que temos acerca do que (ainda) não conhecemos.
A Mercedes partilhou no Folha Verde e a cortesia parece-me ser de Ted no youtube.
"Chimamanda Ngozi Adichie nasceu na Nigéria, em 1977, tendo ido estudar para os Estados Unidos aos dezanove anos. Os seus contos apareceram em diversas publicações e receberam inúmeros galardões como o da BBC Short Story Competition em 2002 e o O. Henry Short Story Prize em 2003. A Cor do Hibisco, o seu primeiro romance, foi distinguido com o Hurston/Wright Legacy Award 2004 e o Commonwealth Writers’ Prize 2005, tendo também sido finalista do Orange Broadband Prize 2004 e nomeado para o Man Booker Prize 2004. Meio Sol Amarelo, já publicado pela ASA, venceu, em 2007, o Orange Broadband Prize, o Anisfield-Wolf Book Award e o PEN “Beyond Margins Award”. A escritora foi também distinguida, em 2008, com um Future Award na categoria de Jovem do Ano e recebeu uma bolsa da MacArthur Foundation, considerada a “bolsa dos génios”, no valor de 500 mil dólares. A sua obra encontra-se traduzida em trinta e uma línguas."


segunda-feira, agosto 23, 2010

Tindersticks in City Sickness

Reinaldo Ferreira

O Futuro
  
Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais



Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses-,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários

sexta-feira, junho 25, 2010

Alice Macedo Campos

sabes, pai. ás vezes quando acordo
pego no contador que tenho dentro do
peito e leio o que me resta da vida.
nesses dias, o mundo ausenta-se para
o teu bolso à espera da primeira insónia
da manhã. é então que agarras num lápis
cansado deste ensejo improvável e desenhas
o meu retrato. uma mulher na berma da estrada
com o ar insuflado dentro do espartilho. por
baixo dos canos altos, escreves as palavras:

o coração é um órgão cuja hemorragia
produz lirios de açafrão.

é por isso que os teus livros são casas de putas.
rendas elevadas que os homens pagam em troca de
consolações orgásticas. ás vezes digo os nomes
deles enquanto urino. sento-me na retrete a matar
a sede aos porcos. dou por mim a pensar que deus,
afinal, está sepultado na tua mão direita.





in Tradução da Memória, 2007

quinta-feira, junho 24, 2010

Light will stay on

I go to sleep, beforethe devil wakesand I wake up, beforethe angels takeall my worldly desiresall my yardsticks of fearall my secrets untoldall my motives unclearhangin' down in the fireburnin' them higherwon't take them away from hereand long after we're gonethe light will stay on X2watched the city ... city of crowswatched them fly, watched'em all flyin' lowout above the flood plainjust above the dirt roadthey were hungry as winter,hungry as usnot afraid to be flyin', notafraid to be lostand long after we're gonethe light will stay on X2and if you bury me, addthree feet to itone for your sorrow, twofor your sweatthree for the strangethings we never forgetand long after we're gonethe light will stay on X2and long after we're safethe lights will not fade X2

domingo, junho 20, 2010

Rão Kyao & Ala dos Namorados

José Saramago















Demissão


Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.


 in "Os Poemas Possíveis"

segunda-feira, junho 14, 2010

Catarse e Horas extraordinárias

Só para quem gosta de estar informado sobre as notícias e as notícias das notícias e, para quem se vicia em leituras e vai dando horas extraordinárias aos outros sobre as leituras feitas.


Catarse
Horas extraordinárias


sábado, junho 05, 2010

Antero Guedes

















Pelas linhas escuras...
dos teus movimentos,
irascível semblante,
trabalhei o desejo à boca
que te beija, silenciando tuas palavras
obsoletas palavras -
enroladas projecções tribais
- e, assim, aconteceram teus gemidos,
meus ais...

da brecha de luz
repartida em nossos corpos
estendemos em equilíbrio a paleta e habilitamos

perdidas cores em danças ancestrais...

pelos dedos e pelas mãos largas de um amor mudo,
percorremos os segmentos de todos os pontos-cardeais
instigados, ainda, por espectros-voláteis
e foi assim que nossa máscara foi exposta:
preencheu com azul, o céu.
A castanho, a terra;
verde, os campos e as copas das árvores...
e essas flores que vimos tocadas por viciosas malhas de cores
cobriram nosso lar, rarefeito, leito marca d´água.
... sim, outrora, uma só estrada rasgava nossa profecia...

e assim tivemos eternidade
assim é... nas malhas da vida: deitados, em pé.

sexta-feira, maio 28, 2010

What a difference a day made...

� Cullum, of course. E se estivesse sol, a coisa dava um conjunto porreiro a combinar com o meu estado de esp�rito.Beijos

sexta-feira, maio 07, 2010

A Naifa vai entrar em digressão

E o Braga a preparar-se para minorar as vitórias mouras....
E eu não me importava nada de estar por lá, na feira do livro e depois a ouvir Naifa.
A verdade apanha-se com enganos...ohoh
Vai frio e a primavera molhada. Abriguem-se ou refugiem-se na lareira.Bom fds...

quinta-feira, maio 06, 2010

Depois de enxurrada incompreensível de posts...

Continuo às aranhas mas com uma certeza enorme: Life deserves to be lived :))) Inté mais logo, people. Fiquem com a Skin e os Skunk Anansie....I cant find piece! (not me, not really me)

terça-feira, abril 06, 2010

The Gift


The diference between us. How the end always end. Ok!Do you want something simple?

Wiki information courtesy.

Carlos Peres Feio
















estou a aprender

a não te ter
é isso
penso no IVA no Iraque e na gripe
pura diversão
para não pensar em ti

não te ter tornou-se a minha crise
maior do que a das economias globais
quando julguei ser um bem
o nosso encontro




mas só agora estou a aprender
a não te ter
isto é uma declaração de amor
mas dolorosa

tive de novo de sair de mim
ouvi-me no que já esquecia
activaram-se circuitos abandonados
só me sobrou o que dispensava

ter de aprender
a não te ter



Carcavelos dia de Páscoa 2010.04.04
In Chinesa do Norte, produções

quarta-feira, março 31, 2010

The Proclaimers


A letter from America.
Throw the "R" awayI'm on my way. I'm gonna be.

Wiki informations's courtesy.

Al Qabri Ramos
















sem assunto

São inúmeras especiarias,
fruta diversa verde e avessa
são flores de mil cores e sem estação,
de trinta e duas lembranças de pedra,
de noite distantes, vazias...
muita folha, muita erva,
são saudades sem idade
de ter saudades nenhumas.


Colibris pintando os sem assuntos,
os meus. Os céus.
Palavras amargas, atitudes controversas,
temperamento de picos, tenazes
e abutres que temos por companhia.

E quando a estação
se recolhe e nos não esquece
um certo outono feito de verão,
perdemos a ligeireza à lingua,
perdemos a primavera,
entorpecemos as artérias
quase entupidas, à mingua (...)
E fazemos do peito
um campo de batalha de amor.

É muita fruta, muita folha,
muito chaparro.
É muita colheita pra
tão rara semeadura
Anula-me lá as saudades.


in Cantos à desgarrada

terça-feira, março 23, 2010

Grace Potter and The Nocturnals



Treat me right.
Rolling Stone.
More information with Wiki courtesy. She's so great.

Jorge Santiago

REFLEXÕES DE EPAMINONDAS


A GRUTA I epaminondas terminou a obra a que dedicara os melhores anos da sua vida, a reconstrução de Tebas. decidiu então recolheu-se a uma gruta, espartana como convém, para meditar, jejuar de...







A GRUTA

I

epaminondas terminou a obra

a que dedicara os melhores anos da sua vida,

a reconstrução de Tebas.

decidiu então recolheu-se a uma gruta,

espartana como convém, para meditar,

jejuar de guerras e outros prazeres carnais

e fazer contas ao passado com olhos de presente.

II

epaminondas sabia que esse processo

de contabilidade psicanalítica

não passaria de exercício aritmético viciado

em que o resultado era previamente conhecido.

pois não é, cada um de nós, no presente,

a soma algébrica dos deves e dos haveres

acumulados ao longo dos tempos passados?

III

epaminondas sabia, pois era homem

de extenso saber de experiências feito,

que ponderada a importância de cada ato

ou desato mais ou menos intencional,

por coeficiente que refletisse o seu peso

no desenvolvimento dos presentes futuros,

depois somasse e subtraísse as variáveis,

inapelavelmente surgiria o rosto familiar

do personagem que integra o eu-atual de cada um.



A QUESTÃO

IV

epaminondas sabia que o verbo inicial

e detonador de todo o pensamento,

teria que sair da fatal questão:

“ah se eu pudesse mudar o passado…..”

e que afirmariam uns:

“eu não mudaria uma linha!”

e que clamariam outros:

“sim, há coisas que …. talvez…”

onde cada posição denuncia

uma forma diferente de cada um atravessar a vida

e de se relacionar dentro do caldo cultural dos humanos.

V

epaminondas sabia ainda, por simples empirismo,

que os deuses não tinham criado os homens iguais,

fosse por lamentável e imperdoável incúria divina,

fosse porque os deuses já teriam antecipado que

a criação do homem não seria obra prima

nem digna sequer de menção honrosa.

em qualquer dos casos, tudo deixava adivinhar,

como aliás os testamentos da história

(os velhos, os novos ou os contemporâneos)

se encarregaram de demonstrar à exaustão,

que a criação do homem seria um ato falhado dos deuses.

VI

epaminondas inferiu assim, logicamente,

que dessa inconsistência do barro genético

resultaria que nem todos os homens aprenderiam

à mesma velocidade, havendo mesmo

muitos a quem essa capacidade seria negada.



APRENDIZAGEM

VII

epaminondas não sabia, nem poderia sabê-lo,

pois os deuses mantinham o poder de adivinhação

restrito aos limites olímpicos e a uns poucos oráculos,

que os homens que não aprendem

se multiplicariam mais depressa que os outros

e que, assim, em escassos séculos,

a terra seria deles, dos homens que não aprendem!

VIII

dos homens que aprendiam,

reza a tradição popular

que se agregaram nas academias

e outras instituições de diversão e recreio

onde afincadamente produziam saber

que a ninguém interessava nem ninguém entendia,

enquanto os homens que não aprendiam

cogitavam na melhor e mais expedita forma

de repetir os erros do passado,

entronizando-se na passerelle das paradas militares,

eternizando-se em bustos de mármore

ou cunhando-se em anversos de moeda corrente.

IX

epaminondas, fatigado de meditar, adormeceu,

e passaram, assim, quase três mil anos

em que o tebano general e pensador,

não tendo pedido a ninguém que o acordasse

(ninguém se atreveria a fazê-lo sem expressa ordem!),

mais não fez que dormir o sono justo dos heróis.



ATO FALHADO

X

nada de mais entretanto acontecera.

os piores receios dos deuses confirmaram-se,

ou não fossem eles deuses.

os homens nunca mais se recompuseram

dos maus tratos de que foram vítimas

por parte do pai criador,

particularmente a expulsão da casa paterna

como castigo desmesurado por mero pecadilho

de juventude entregue a si própria.

XI

epaminondas acordou finalmente

do reparador sono de quase três milénios.

tomou um duche rápido e encomendou

um croissant, um sumo de laranja

e um café curto bem forte.

XII

ligou o laptop e conectou-se em banda larga,

correu os olhos pelos emails

e concentrou-se na leitura do Financial Times.

crises financeiras, greves e despedimentos,

tremor de terra aqui, inundação ali,

incontáveis conflitos armados de dimensões

e violência para todos os gostos e paladares,

enfim, o trivial, nada, afinal, que o grego não tivesse

já visto e revisto ao longo da sua vetusta idade.



O CIRCO

XIII

uma coisa, contudo, deixou epaminondas perplexo,

se não mortalmente desiludido!

mesmo sabendo ele que os homens não aprendem,

esperaria o general que o sistema de

convivência que tinha sido inventado

no tempo da sua juventude e a que os seus

compatriotas chamaram democracia

se tivesse espalhado pelas terras do planeta

e fosse prática comum entre os homens.

XIV

passados três mil anos, o sistema

era totalmente desconhecido

da larga maior parte dos poderes vigentes

ou, na melhor das hipóteses,

permanecia em fase experimental

nos raros locais onde era utilizado.



EPÍLOGO

XV

O choque foi demasiado grande

e epaminondas entrou em depressão profunda.

fez terapia de grupo durante 3 anos,

assumiu a sua secreta filiação maçónica

e entrou para a ordem dos monges de Cister,

tendo dedicado o resto da sua vida

ao cultivo de vegetais hidropónicos

e à produção de geleias e compotas.



O tempo envelhece e os homens não aprendem.

terça-feira, março 16, 2010

Lacóbriga Check Sound em Lagos, Algarve


 Lacóbriga Check Sound - stage 1, pelas 21h30, no LAC - Laboratório de Actividades Criativas (antiga Cadeia de Lagos).

O Lacobriga Check Sound é um projecto que tem como objectivos promover as bandas do concelho ao nível regional e nacional, estimular a colaboração e participação de músicos regionais e nacionais, fomentando a partilha de conhecimentos e troca de experiências, potenciando o aparecimento de novos grupos musicais.

O Stage 1 irá realizar-se no LAC – Laboratório de Actividades Criativas (antiga cadeia de Lagos), no próximo dia 20 de Março de 2010 com:



THE MURDER CASE - www.myspace.com/themurdercasemusic

NEW LEVEL - www.myspace.com/newlevelband

THRASHYLVANIA – www.myspace.com/welcometothrashylvania



Inicio dos concertos: 21H30

Entradas: 3,5€ Geral / 2€ amigos e artistas residentes do LAC

Para mais informação acerca dos concertos a realizar no âmbito deste projecto, consultar www.myspace.com/checksound
O Lacobriga Check Sound conta com os apoios da Câmara Municipal de Lagos e da Direcção Regional de Cultura do Algarve.
Informamos todos os interessados que o Centro de Documentação e Secretaria do LAC mantêm o horário: 2ª, 3ª, 5ª e 6ª das 10h30 às 14h30 e das 15h às 19h e que está disponível, desde Setembro, Internet Wireless, sendo mais um ponto de acesso gratuito à Internet em Lagos.



O LAC – Laboratório de Actividades Criativas – Associação Cultural é uma associação sem fins lucrativos, formada em 1995, sediada no edifício da antiga cadeia de Lagos.
Tem como objectivo principal dinamizar e promover a criação artística no barlavento algarvio, nomeadamente na divulgação dos artistas residentes nesta zona, promovendo a interdisciplinaridade e o contacto destes com outros artistas e instituições culturais nacionais e internacionais, com vista à troca de ideias e intercâmbios de iniciativas.

sexta-feira, março 05, 2010

Carlos Peres Feio


















Para Quem detiver o Código

a manhã acordou antes de mim
nem uma folha mexia
as ameaças no ar
eram do fim do mundo
o compasso de um relógio
dizia que tudo termina
um dia

já não viajo como dantes
os circuitos estão no redil
da minha cabeça

nunca sou sozinho
como à mesa dos fantasmas
que me são indispensáveis
deito-me em cama preenchida
com imagens sensuais
que de ti registei

uso os versos escritos
como colete salva vidas
e assim tenho a garantia
de ter conhecido de muito perto
o fogo de que me alimento

em mente três
últimos pensamentos
para um final feliz
Amizade Afeição Amor






in Carlos Peres Feio

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Nicole Eitner

Esta moçoila a deliciar os primeiros momentos de web hoje.
Um hino que poderá, inclusivé, afastar o mau tempo por algum tempo.
Just listen.

domingo, fevereiro 21, 2010

Mazzy Star

Sophia de Mello Breyner Andresen

As pessoas sensíveis




As pessoas sensíveis não são capazes

De matar galinhas

Porém são capazes

De comer galinhas





O dinheiro cheira a pobre e cheira

À roupa do seu corpo

Aquela roupa

Que depois da chuva secou sobre o corpo

Porque não tinham outra

O dinheiro cheira a pobre e cheira

A roupa

Que depois do suor não foi lavada

Porque não tinham outra





"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"

Assim nos foi imposto

E não:

"Com o suor dos outros ganharás o pão."





Ó vendilhões do templo

Ó constructores

Das grandes estátuas balofas e pesadas

Ó cheios de devoção e de proveito





Perdoai-lhes Senhor

Porque eles sabem o que fazem.




in Livro sexto

domingo, fevereiro 14, 2010

The promised Land



Magazine Gap. It shouldn't work (but id does)!
Subscriving entirely.

Su Dong Po

"Primavera Precoce", de Wang

Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?



Sobre a pintura de um ramo florido

sábado, fevereiro 06, 2010

Buena Vista Social Club

José Tolentino de Mendonça


A casa onde às vezes regresso é tão distante













A casa onde às vezes regresso é tão distante

da que deixei pela manhã

no mundo

a água tomou o lugar de tudo

reúno baldes, estes vasos guardados

mas chove sem parar há muitos anos



Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai

uma viagem se deu

entre as mãos e o furor

uma viagem se deu: a noite abate-se fechada

sobre o corpo



Tivesse ainda tempo e entregava-te

o coração







in A Que Distância Deixaste o Coração

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Carlos Teixeira Luís


Poetas de Sangue & Outros Caminhos

Seguramente, o vento saberá deles.
As Folhas Caídas tem um século.
O Mar encanta a Sophia em nós.
Ainda há gente que segue o Cherne,
Autodidactas como nós, gente dos outros,
Com Pluma Caprichosa, a falta que nos faz O’Neill.
Sou Pessoa, porque Pessoa nos gerou,
Mas também sou Vinicius de copo de whisky,
Não sou samba, mas sou ritmo,
Talvez bossa, talvez Drummond, talvez Bandeira,
Quem sabe Gilberto.
 



Sou Whitman, porque caminho e queria abraçar
O mundo todo, mas o mundo todo é longe.
Bem pego no violão, mas os meus três acordes
Só chegam para Dylan e uma balada roufenha,
Tenho saudades das flores e árvores
De Ramos Rosa, não as podem plantar
Por aqui?
E o céu que aquece Herberto, a sua neblina
De peito de mulher feita mar, de degraus
Para o infinito da palavra.
O amor de papoila e trigo e saudade de Espanca,
Espanca-nos a alma com a sua fragilidade.
Não, nós somos fortes, dizemos,
Somos sangue e vinho de Lorca, somos
Os tiros da madrugada falsa, que o levou.
Somos a areia fria e negra,
O rosto belo do amor de Neruda.
Somos o lamento de Paz,
Ou Jimenez, que em castelhano sabe chorar
O amor das mulheres quentes
Nas tardes frias com céu laranja de fogo.
Bebo um copo, sim senhor,
A garganta pede, mas fujo de Buk,
Pancada levarei, a sua acutilância
Faz falta, andamos moles como moles somos.
Pessoa tentamos ser.
Pessoa aprendemos a ser em escolas de corrente-de-ar.
Tenho medo das ruas frias,
Do feroz homem de arma na mão,
Quem cairá desta vez,
A memória de Pasternak, ou o rosto pintado
De Maiakovski?
Vamos de férias aos mares da pobreza
E ficamos longe, num resort protegido
Dos fantasmas de Rimbaud queimado pelo sol,
Embalado na barcaça que bebe das águas lamacentas
Do rio Níger,
Para onde me levas,
Porque insistes em me atormentar
Nas tardes de trovoada,
Corvo de Poe?
Porque me afliges com as tuas histórias mortas-vivas?
Para ser atormentado antes de morrer,
Basta viver aqui.
Aqui desprezamos os nossos poetas,
Eles vivem nas ruas de Braga,
Como vagabundos e morrem atropelados
Por motorizadas ébrias, como Alba.
Sim, Sebastião Alba, ouviste falar?
Sim, Daniel Faria, ouviste falar,
Viveu num sopro de brisa,
Num fôlego de passarinho,
Que simplesmente… cessou.
Para onde nos levará a poesia,
Para as Ondas de Woolf,
Com pedras nos bolsos?
Ou ás alamedas de abetos vociferantes
E de ciclópicas sequóias que sussuram
De Frost?
Para onde nos levam
As nossas orações de mal plantadas,
Mestre Baudelaire?
A um mero paraíso artificial?
Para onde nos levam
As nossas caminhadas sem eira
Debaixo do céu de Outubro,
Mestre Dylan Thomas?
A um tasco qualquer de perdição?
Saímos do nosso quarto bafiento,
Que ruas tomamos,
Que sombras seguimos,
Que agonia nos alimenta,
Pavese ou mesmo tu, comum Carver?
Eu por mim,
Viajante das ruas conhecidas,
Fico pelas veredas verdejantes
E caminhos de terra calcada e poeirenta
Com a voz de Janita na mente
E um ou dois poemas de Peixoto,
Não me alimentam mas
Dão-me de beber ao espírito de asas de pardal
Que me leva de farol em farol,
No meu biplano ferrugento,
Sempre junto à costa
E rente aos rostos das mulheres que estendem roupa
Como quem diz adeus.
Que achas, Cesário, terei razão,
As ruas são nossas ou não?

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Uma fotografia

Esta reportagem chegou via email e vem acompanhada de um texto que posto na íntegra. Dedico o post aos "n" de fotógrafos" que frequentam o multy e a blogspot e tiveram a felicidade de não receberem oscares nem nomeações, por nunca estarem em cenários de guerra, onde teriam que assistir à morte de civis, mais específicamente, de crianças!


A consciência é a voz da alma.
Uma foto que me deixa a pensar sobre o suicídio moral da humanidade e pensar a passagem da óptica para passar à estética do bom e do mau jornalismo, facto ou documento precioso de como uma foto representativa nos mostra aquilo em que nos havemos convertido...
Clica e envia a todos do caminho que a humanidade está a percorrer através das várias frentes de comunicação entre os homens.





En tus brazos


En tus brazos. Para quem gosta de cartoons, de hist�rias de amor e de tango.
Creio j� ter postado isto mas deve ter dado volta ao mundo e chegou-me novamente. Porque � um trabalho brilhante e bem premiado, merece ser revisto. I hope you like it

terça-feira, janeiro 05, 2010

Carlos Peres Feio


Revolta

acho óptimo revoltar-me
no final do ano
chamo a isto
dar oportunidade aos Deuses
para me cancelarem o acesso
a este mundo
aproveitem agora






Zeus, se quiseres chamo-te Júpiter
mas despacha-te
aparece para me condenares
mas traz contigo
Diana ou Ártemis
como quiseres
poupa o trabalho a
Afrodite e Eros
porque já não me recuperam
agora que estou entregue
a Baco e Apolo

fui tentado por aquele
Hermes a quem outros
chamam Mercúrio
mas lembrei-me das minhas raízes
à beira de dois oceanos
optei por alinhar
primeiro com Neptuno
de seguida com Poseidon
para a impossível fuga por mar

Zeus, vejo-te no olhar
a vontade de não me renovares o passe
e aceito-a
tens relutância em manchares
o teu séquito clássico
na tarefa – adivinho
tudo bem – não te rales
sei que podes contar
com Deuses menores
para as tarefas menos nobres
descansa – há sempre
quem queira tomar
o teu lugar

escuta... aproximam-se
chamam-se
Krishna Abraão Buda Jesus Maomé
esses revisores
quero lá saber
saio na próxima estação


In Carlos Peres Feio2009
foto daqui