sexta-feira, junho 25, 2010

Alice Macedo Campos

sabes, pai. ás vezes quando acordo
pego no contador que tenho dentro do
peito e leio o que me resta da vida.
nesses dias, o mundo ausenta-se para
o teu bolso à espera da primeira insónia
da manhã. é então que agarras num lápis
cansado deste ensejo improvável e desenhas
o meu retrato. uma mulher na berma da estrada
com o ar insuflado dentro do espartilho. por
baixo dos canos altos, escreves as palavras:

o coração é um órgão cuja hemorragia
produz lirios de açafrão.

é por isso que os teus livros são casas de putas.
rendas elevadas que os homens pagam em troca de
consolações orgásticas. ás vezes digo os nomes
deles enquanto urino. sento-me na retrete a matar
a sede aos porcos. dou por mim a pensar que deus,
afinal, está sepultado na tua mão direita.





in Tradução da Memória, 2007

quinta-feira, junho 24, 2010

Light will stay on

I go to sleep, beforethe devil wakesand I wake up, beforethe angels takeall my worldly desiresall my yardsticks of fearall my secrets untoldall my motives unclearhangin' down in the fireburnin' them higherwon't take them away from hereand long after we're gonethe light will stay on X2watched the city ... city of crowswatched them fly, watched'em all flyin' lowout above the flood plainjust above the dirt roadthey were hungry as winter,hungry as usnot afraid to be flyin', notafraid to be lostand long after we're gonethe light will stay on X2and if you bury me, addthree feet to itone for your sorrow, twofor your sweatthree for the strangethings we never forgetand long after we're gonethe light will stay on X2and long after we're safethe lights will not fade X2

domingo, junho 20, 2010

Rão Kyao & Ala dos Namorados

José Saramago















Demissão


Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.


 in "Os Poemas Possíveis"

segunda-feira, junho 14, 2010

Catarse e Horas extraordinárias

Só para quem gosta de estar informado sobre as notícias e as notícias das notícias e, para quem se vicia em leituras e vai dando horas extraordinárias aos outros sobre as leituras feitas.


Catarse
Horas extraordinárias


sábado, junho 05, 2010

Antero Guedes

















Pelas linhas escuras...
dos teus movimentos,
irascível semblante,
trabalhei o desejo à boca
que te beija, silenciando tuas palavras
obsoletas palavras -
enroladas projecções tribais
- e, assim, aconteceram teus gemidos,
meus ais...

da brecha de luz
repartida em nossos corpos
estendemos em equilíbrio a paleta e habilitamos

perdidas cores em danças ancestrais...

pelos dedos e pelas mãos largas de um amor mudo,
percorremos os segmentos de todos os pontos-cardeais
instigados, ainda, por espectros-voláteis
e foi assim que nossa máscara foi exposta:
preencheu com azul, o céu.
A castanho, a terra;
verde, os campos e as copas das árvores...
e essas flores que vimos tocadas por viciosas malhas de cores
cobriram nosso lar, rarefeito, leito marca d´água.
... sim, outrora, uma só estrada rasgava nossa profecia...

e assim tivemos eternidade
assim é... nas malhas da vida: deitados, em pé.