quarta-feira, dezembro 28, 2011

Café Negro



Universo. Fly with me. Run away. Loud for you.

Al Qabri Ramos




























nunca fomos janeiro


fazias-me presa a convenções
arrancando-me os dias
estat calendarizada,
uma cidade histórica e bonita
um porto pra onde voltar
depois da vida




alteravas as necessidades e só me lembro
que o teu rosto era a fogueira perfeita
o teu parecer alimentava-me os dias
podia vir frio, dezembro


ainda de luto, fingias estar resolvido
de negro ando eu meu querido


disputavas o meu pc
a minha atenção
e nem o meu nome sabias
Eu chamo-me
a mulher que se esqueceu do amor
em dezembro.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Throwing Muses




Two step. Fish. Hate my way. Vicky's box.
Delicate cutters. Shimmer. Calm down, come down.
Graffiti. The party. Soul soldier. Ride into the sun.
Cry, baby cry. Ellen West. Dylan. You cage.



Kristin Hersh enlisted her stepsister, Donelly, to help form the group while they were attending Rogers High School. The two served as guitarists, lead vocalists, and songwriters for the group; drummer David Narcizo joined shortly thereafter. Hersh originally named the group "The Muses". Since the band was no longer composed of only female musicians after Narcizo joined, they decided to shift to a name with fewer gender-specific connotations, "Throwing Muses". (More recent interviews with Kristin state that they were never called "The Muses" or "Kristin & The Muses.")

Early recordings were made in 1983 but not released. A self-titled EP was released in 1984 on their Blowing Fuses label. The group self-released a set of demos in 1985, later known as The Doghouse Cassette, garnering a number-one college radio hit, "Sinkhole," that year. The demos came to the attention of Ivo Watts-Russell, who signed them as the first U.S. band on the 4AD Records label and released their self-titled debut album in 1986.

The group also co-released some of their later albums on Sire/Reprise Records and Rykodisc. With cover stories about them published in most major British music publications of the 1980s, they became one of the first successful alternative rock acts to be led by two female singer/guitarists.

The band's personnel has changed over the years. Bassist Leslie Langston left after 1990, replaced by Fred Abong, but returned briefly to record tracks on Red Heaven in 1992. Donelly left Throwing Muses after 1991's The Real Ramona, first to perform in The Breeders and afterwards to form Belly. Abong left in 1991, soon joining Belly, and was succeeded by Bernard Georges in 1993. Since 1992, the group has been a trio composed of Hersh on guitar and vocals, Georges on bass, and Narcizo on drums. During the mid-1990s, Hersh also began a solo recording career, releasing the album Hips and Makers, alongside her band work.

Carlos Edmundo de Ory


Dame

Dame algo más que silencio o dulzura
Algo que tengas y no sepas
No quiero regalos exquisitos
Dame una piedra

No te quedes quieto mirándome
como si quisieras decirme
que hay demasiadas cosas mudas
debajo de lo que se dice

Dame algo lento y delgado
como un cuchillo por la espalda
Y si no tienes nada que darme
¡dame todo lo que te falta!


ilustração A Thousand Kisses Deep, por Elisa Arguilé
(um dos oito ilustradores das canções de Leonard Cohen)

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Luar na Lubre



Tu gitana. Canto de andar. O son das augas. Hai un paraiso.
Os animais. Romeiro ao lonxe. Chove en Santiago.
Muñeira do Miño. A mynia amiga. Via lactea.
Memoria da noite. A herba de namorar. Costa da morte.
Canteixere. Highlanders. Albarada. Achegate.
Cancion de Berce. O son do ar. Espiral.

Carlos Edmund de Ory




Eros tremendum

En la noche del sexo busco luz
y encuentro más y más oscuridad
mi cuerpo es sacro y sacrifica edad
sin tiempo sobre el tuyo cruz con cruz.

Subo y bajo y gravito mi testuz
cae sobre el muro de tu atroz ciudad
sin puertas donde al fin me da mitad
de entrada a la tiniebla un tragaluz.

Mantel mi espalda cubre los manjares
mis brazos y mis piernas son a pares
con los tuyos en forma de escorpión.

Las dos manzanas mi contacto deja
y duerme como un vaso en la bandeja
de tu vientre mi enorme corazón.









(citação sua: apenas o estranho me é familiar)


Obras publicadas:

  • Música de Lobo 2003
  • Los sonetos 1963
  • Esa joya absoluta que es Poesía 1945-1969
  • Técnica y llanto
  • Lee sin temor
  • Aerolitos
  • La flauta prohibida
  • Metanoia
  • Energeia
  • Soneto vivo
  • Melos melancolía

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Saint Privat




Saint Privat is a group formed in 2002 by singer Valérie Sajdik and electronica musician Klaus Waldeck, named after the village of Saint-Privat in France, where Valérie decided to live
Saint Privat's first album Riviera, released in 2004, lead to the band being awarded the Amadeus Austrian Music Award for newcomer of the year in 2005. This success was followed up in 2006 by Superflu, which shifted the balance from the electronica towards the musicians.

Courtesy Wikipedia


Tous les jours. Superflu. La melodie.
Poisson Rouge. Nothin' to loose.
Dadaism. Gone with the wind.
Mille Baci. Somebody to love.
Sans Remords. Mademoiselle.
Une dernière cigarrette.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Massive Attack



Live with me.  Saturday come slow.
Just a matter of time. What your soul sings.
Teardrop. AngelKarmacoma. Three.
Safe from harm. Dissolved girl.
Paradise circus.  Buttherfly caught.


Del Naja é um dos fundadores do Trip-Hop de Bristol e membro da banda Massive Attack que estourou com o seu primeiro álbum em 1991Blue Lines para elogio considerável dos críticos e ouvintes afins, foi uma mistura de hip-hopjazz e soul com batidas desaceleradas e densas que resultou certo e influenciou várias bandas, nascia o trip-hop.
"Quando éramos do Wild Bunch, tinhamos algumas características. Éramos pessoas totalmente diferentes, com famílias de culturas diferentes, produzindo juntas. Havia muitas coisas e ideias a acontecer", ele relembra. "Na época, nem sabíamos se iríamos terminar o disco. Acho que conseguimos encapsular o nosso mundo naquele álbum. Foi algo contra o sistema, contra o que havia nas rádios e na TV."

João Valente Martins



E se...

E se de repente
Um rio
Corresse entre
Os meus dedos
E o teu corpo
Fosse
Um barco?

E se de repente
As palavras que te digo
Fossem
Remos?

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Jeff Beck e Imelda May



 Remember. Walkin' in the sand.
Tiger rag. Mayhem.

Al Qabri Ramos


Cúmplices

Por vezes desacreditados
Frios, ausentes.
Cansados.

Acordei com a tua voz
Amo-te, dizias.

Escolhi a tua sombra
para desbravar caminhos,
Vida fora







Envelheci contigo
No tempo de rugas e  sonhos.
Foste bússola,  porto de abrigo
E nunca tremi de medo na noite vazia.

O teu sorriso aberto
A incerteza no olhar...
Oferecendo o teu braço,
qual cajado,
 para que possa caminhar.

Cobres os meus dedos de carícias
Nas noites outonais
Quando me ouves suspirar de cansaço.

Todos os dias eu peço, ao teu lado
Apenas um dia mais.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

António Faustino


































não sei se há uma verdade
se há várias verdades
mas sei de uma
que conto a conta gotas
em vésperas de despedidas
quando nosso coração se torna naufrago
e caímos nas primeiras chuvas de outono
como ondas a morrer na praia
é uma verdade em forma de sofisma
dessas que se julgam absolutas
e apanhamos como conchas há beira mar
na baía que já foi dos nossos sonhos
há uma verdade própria nas palavras que nunca te direi
porque o futuro é apenas de quem ama
em boa verdade,
não preciso escrevê-lo
como sabem
não se esquece quem se ama

almada,  in as minhas flores são as palavras ou a difícil arte de amar, novembro/2011



quarta-feira, novembro 30, 2011

Simply Red




Os Simply sempre estiveram na "mó de cima", mantendo o seu público fiel.
Não será por acaso que, ao fim de 25 anos de carreira, a banda tenha produzido Stay, considerado o melhor trabalho muito graças à experiência vasta da produção de lyrics de Mick Hucknall. Em 2010, coerente ou precipitadamente (para os seus fãs), encerram a carreira e deixam-nos orfãos da sua música pop britânica de qualidade. Vinho como este vai rareando. De boa casta.

If you don't know me by now. Holding back the years.
Stars. So beautiful. For your babies. Fake.
You make me feel brand new. Maybe someday.
Everytime we say goodbye. Infidelity. Stay.





sexta-feira, novembro 25, 2011

REBOSTEIO - revista digital: não dá pra perder...



REBOSTEIO - revista digital: não dá pra perder...:

" Desejaria que abordássemos a experimentação como signo do nosso tempo, com inusitada liberdade, e que outorgássemos à arte todas as qualid...
No primeiríssimo número da nossa revista, uma entrevista exclusiva com o multi-talentoso hermano Adrian Dorado, ilustrada com várias de suas obras...
E isso é só um gostinho do que vem por aí.

Apresentada está a imensidão da arte e as suas múltiplas possibilidades.
Por dentro, um tour de art'digital, visita guiada, onde todos os nomes e corpos desaguam artisticamente no mesmo mar.
Esta definição de formato cultural que, mais do que na história, fica já no presente.

domingo, novembro 20, 2011

Porcelain Unicorn

Um filme que pode bem salvar, não uma nação, nem os judeus do apocalypse vivido mas antes o indivíduo enquanto possuidor de um livre arbítrio... Um filme premiado em Cannes que, bem feitas as contas pode salvar toda a humanidade do preconceito ou estigma que se cria a uma nação por actos cruéis contra o ser humano. Não somos todos iguais, ainda que vivendo as mesmas circunstâncias, padecendo do mesmo regime e "comungando" com a mesma sociedade. O amor sobrevive a todas as guerras.Unicórnio de porcelana promete. Um agradecimento à Amélia Pais por me ter dado a conhecer mais esta pérola. Grand Prize Winner.


quinta-feira, novembro 03, 2011

Max Richter - Infra

Teatro Maria Matos.
  É homenagem à arte na sua totalidade, versando a dança, através do corpo de ballet, da inspiração de Wayne McGregor e da sua visão nada redutora do ser humano; de um universo mágico e louco de Max Richter através da música e dos registos ousados (de Satie a Shubert), misturando autores e ideologias como se no apocalypse se redescobrisse o valor humano da arte; da dor que nos agiganta, ao medo que nos aprisiona, da doçura da esperança ao ritmo do dia-a-dia ocasional, do laissez faire laissez passez, através da cenógrafa Julian Opie, nas paisagens urbanas de rua. 
  T.S.Elliot parece estar subjacente a esta segunda pele, bem como as "metamorfoses" de Kafka, Haruki Murakami e tantos outros. Espreitar a intensidade com que se materializa uma ideia e se dá corpo à paixão pode ser uma alternativa 2 em 1. Uma fuga bem conseguida ao cinzentismo deste Inverno. O Teatro Maria Matos será o palco. Este sábado, 5 de Novembro, com início ás 22h. ;) Enjoy.
Acompanho-vos nos primeiros 7 minutos.


Mariana Ianelli




Ignoro se tu és capaz de voltar.
Quero a novidade de tua ausência
Com uma paixão sem calor que mais aumenta
Quando tento vencer a realidade.
Sou a paz em que acredito inutilmente
E ainda sou a vertigem desta paz.
O desejo de que tu compareças
Não dura em mim do mesmo modo que tua imagem,
Que tua forma irresponsável de mover-se
E se despir e descansar no meu passado.
Tu permaneces aqui sem teu corpo
E, pensando no oculto, eu abandono a existência
Para me deitar no lago das carpas.
Teria sido o final de um verão
E não o tempo em que te foste
Se em vez de amando eu estivesse louco.
Tu vives no propósito de minhas ficções:
Uma terra deserta, estável e mansa.
Nesta hora em que desapareces do meu sonho,
Também eu, predador de tua alma, vou com os mortos.



tela retirada da web

terça-feira, outubro 25, 2011

domingo, outubro 09, 2011

Paulo José Miranda, The Soulground




Água na boca (primeiro álbum) e outros temas estão assinados sob o nome de The Soulground.



Água na boca.
Sob a água dos céus.
My girl. 
Atlantic Train.

Paulo José Miranda


Poema inédito 
(dedicado a António de Castro Caeiro e Mário Jorge Carvalho)
Caminhamos do fim ao fim
Porque não há princípio
Vamos do fim que nos deram
Ao fim que conseguimos
Entre estes dois nadas
Que mais que as nossas mãos são as nossas mães
Uma que nos expulsou
E uma outra que nos espera
Sempre se vai encontrando
Aqui e ali um ou outro remédio
Alguma coisa sem importância
Ou outra qualquer coisa para se fazer

Desconheço autoria da pintura retirada da web.

sexta-feira, outubro 07, 2011

Tomas Transtromer

Tomas Transtromer

Sobre o Nobel da Literatura, um psicólogo que não é uma ilha mas que precisa dela para se exilar.








Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras mas onde não há uma linguagem;Dirigi-me para a ilha coberta de neve.
A veação não conhece palavras.
As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções.
Eu dei com vestígios de cascos de corça na neve.
Linguagem, mas nenhuma palavra.

terça-feira, outubro 04, 2011

Jean Iris Murdoch







It sounds different tonight.
What does?
The world.
It's snowing.



A biografia em filme de uma escritora e filósofa irlandesa que privou com Camus. 

E15 de julho de 1919 nasceu em DublínIrlandaJean Iris Murdoch, a escritora e filósofa que, em 1978, foi premiada com o Booker Prize e, en 1987, foi nomeada Dama Comandante da Ordem do Império Britânico.

Iris MurdochInstalada junto com a sua familia en Londres, a leitura dos clássicos, sobre a história antiga e a filosofia cativou-a durante a sua época de estudante no  Somerville College de Oxford. Anos depois, iniciou-se como professora do St. Anne’s College e começou a publicar ensaios sobre filosofia, incluindo o primeiro estudo em inglês sobre Jean-Paul Sartre.

No inicio de 1954, a escritora viu publicada a sua primeira novela, que se deu a conhecer através do título“Under the net” e que, em 2001, foi eleita pela American Modern Library como “uma das melhores novelas em língua inglesa do século XX”. Dois anos depois dessa primeira publicação, Iris Murdoch contraiu matrimónio com o novelista e professor de literatura inglesa John Bayley.

Ao longo da sua carreira, a autora escreveu uma grande quantidade de obras como “The Sandcastle”“An unofficial rose”“The italian girl”“The nice and the good”“Bruno's dream”“A fairly honourable defeat”“The sagrade and profane love machine”“The message to the planet”“Jackson's dilemma” e “Existencialists and mystics”, entre muitas outras. Lamentavelmente, em 1995 Murdoch começou a experimentar dificuldades na criação de novos textos devido aos efeitos de um incipiente mal de Alzheimer, razão pela qual os seus escritos começaram a diminuir.

Com 79 anos e uma importante trajectória literária, a Dama Comandante da Ordem do Imperio Britânico não teve como impedir que, a 8 de fevereiro de 1999, a morte ganhasse a batalha. Tempo depois desse trágico episódio, um trabalho cinematográfico intitulado “Iris”  realizou-se, ficando a dever-se à colaboração do seu marido, ao ceder dados sobre a história de amor que uniu Iris Murdoch a John Bayley.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Aurea



Página Oficial.
No one.  Ok, alright.
No, no, no, no (i dont want to fall in love with you baby)
Love me tender.  Be my baby.  Now. 
Heading back home.  The main things about me.
The only thing that i wanted. Don't ya say it.


Em apenas 4 meses, o álbum de estreia de Aurea já atingiu o 1º lugar do TOP NACIONAL de vendas e é disco de Platina em Portugal, sendo já considerada a voz revelação de 2010.

Depois de vários showcases nas FNAC e até um dueto do tema "Love me Tender" com Elvis Presley (aprovado pela família do mesmo e íncluido no álbum VIVA ELVIS, editado no final de 2010), Aurea iniciará brevemente as actuações ao vivo nos palcos nacionais, com a garra e a voz únicas que a caracterizam, acompanhada por uma grande banda de músicos conceituados e reconhecidos no nosso panorama musical.



Detentora de voz poderosa e cativante, apesar dos seus 23 anos, Aurea tomou de assalto as ondas hertzianas nacionais com o single de estreia “Busy (For Me)”, que faz parte do alinhamento do seu álbum de estreia, homónimo, que chegou às lojas a 27 de Setembro 2010. Tanto “Busy (For Me)” como o disco “Aurea” estiveram várias vezes em n.º 1 do iTunes (Portugal).

Aurea tem a voz do tamanho do mundo e a sua música também não conhece fronteiras. O talento de Aurea para cantar é inato e um dom que não escolhe qualquer um. A vocação, essa, está-lhe nos genes, na vida da sua família que sempre foi muito musical.

As influências desta cantora de Santiago do Cacém vão de Aretha Franklin a Joss Stone, passando por John Mayer e Amy Winehouse, estendendo-se a James Morrison e Zero 7, mas Aurea quer reclamar o seu lugar no mundo da música e se há alguém que pertence a esse mundo com todo o mérito é ela.

"Busy (for me)" marca a estreia deste primeiro registo, contagiante e eclético, que tem na voz de Aurea o seu fio condutor. Para fruir, mais ou menos lentamente, mas sempre intensamente.

Rubens Pesenti


segunda-feira, agosto 15, 2011

Pablo Neruda





Pablo Neruda
Não há esquecimento (Sonata)

Se me perguntais onde estive,
devo dizer "Acontece".
Devo falar do chão que as pedras escurecem,
do rio que permanecendo se destrói:
não sei senão as coisas que os pássaros perdem,
o mar que ficou para trás ou minha irmã chorando.
Porquê tantas regiões, porquê um dia
se junta a outro dia? Porquê uma negra noite
se acumula na boca? Porquê mortos?

Se me perguntais donde venho, tenho que conversar com coisas gastas,
com utensílios demasiado amargos,
com grandes animais muitas vezes já podres
e com meu angustiado coração.

Não são as lembranças que se atravessaram,
nem a pomba amarelenta que no esquecimento dorme, mas sim faces com lágrimas, dedos na garganta,
e o que desmorona das folhas:
a escuridão de um dia decorrido,
de um dia alimentado com o nosso triste sangue.

Eis aqui violetas, andorinhas,
tudo o que nos agrada e aparece
nos doces cartões de longa cauda
onde passeiam o tempo e a doçura.
Mas não penetremos para lá desses dentes,
não mordamos as cascas que o silêncio acumula,
pois não sei que responder:
há tantos mortos,
e tantos molhes que o sol rubro partia,
e tantas cabeças que batem nos navios,
e tantas mãos que encerraram beijos,
e tantas coisas que desejo esquecer.



in Residência Na Terra, tradução e prólogo de José Bento por Relógio D'Água
imagem recolhida da web

quinta-feira, julho 28, 2011

Mia Couto



Para TiFoi para ti 
que desfolhei a chuva 
para ti soltei o perfume da terra 
toquei no nada 
e para ti foi tudo 

Para ti criei todas as palavras 
e todas me faltaram 
no minuto em que talhei 
o sabor do sempre 

Para ti dei voz 
às minhas mãos 
abri os gomos do tempo 
assaltei o mundo 
e pensei que tudo estava em nós 
nesse doce engano 
de tudo sermos donos 
sem nada termos 
simplesmente porque era de noite 
e não dormíamos 
eu descia em teu peito 
para me procurar 
e antes que a escuridão 
nos cingisse a cintura 
ficávamos nos olhos 
vivendo de um só 
amando de uma só vida 


 in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"