quarta-feira, outubro 10, 2012

Teoria Geral do Esquecimento


A entrevista foi postada pela Mercedes Lorenzo, uma das editoras da revista de arte e cultura brasileiras REBOSTEIO (contém nota sobre a poesia de Christiana Nóvoa, poetisa brasileira), entrevista essa feita a José Eduardo Agualusa, sobre a Teoria Geral do Esquecimento que conta das dores de uma portuguesa numa Angola em vésperas da
Independência e dos seus dribles para sobreviver, de memória sobre o medo, o absurdo do racismo e xenofobia, sobre amor e redenção. A esta Teoria, seguir-se ão, quiça, as Nuvens Ilustradas - de Lisboa - como próximo cenário literário. A merecer leitura

Pelo Sonho de escrever um romance traduzido





domingo, outubro 07, 2012

Manuel Tavares

foto de Melody no Flicr


Há coisas que nunca deveriam sair de onde estão.


O olhar nem sempre revela
Tal como o pensar
Nem sempre reflecte
Coisas da razão.













Saí de casa. A rua adensa-se a cada passo. Olho os rostos que avançam apressados, não sei para onde vão...Porque correm eles todos os dias? O que pensam nas horas mortas nos comboios, nos autocarros, nos automóveis?

. . .

Volto atrás. Dentro de casa vou deixando pedaços de mim. No quarto de banho encontro um eu matinal, na cozinha os horizontes "abrem-se" para ouvir notícias cada vez mais iguais. O quarto de dormir esse continua parado, com aquela nuvem espessa e protectora de muitos sonhos, muitos cansaços, muitas carícias, muitas promessas mas, sobretudo, muito, muito sono.
. . .

Tropeço a ver o jornal num quiosque. Não sei que procuro naqueles pacotes de letras e imagens insidiosamente colocadas para chamar a nossa atenção...Corro para o "guichet" e compro o bilhete. Oiço uma voz roufenha "Inter-regional para Coimbra na linha 2", e não sei porquê apresso o passo mesmo sabendo que ainda faltam cinco minutos para fazer apenas vinte metros... "Calma", digo eu para mim próprio, e com este remédio consolo-me pensando que afinal sempre vou tendo algum auto-controle perante as minhas irritantes reacções involuntárias.
. . .

Cinco minutos. Foi quanto disse a mim mesmo que ia demorar o meu duche. Ah! Mas a água quentinha a descer-me pelas costas como mil mãozinhas de fada cantando "Só mais um bocadinho". Coloco a água mais fria para "me por fino" e saio triunfante pensando nesta pequena vitória espartana, ascética como o "raio que o parta". Quantos de vocês conseguem colocar água gelada no fim do banho em pleno inverno!? Ah!? Pois, pois... Cobardolas...
. . .

Está um frio de rachar em Coimbra. Mal sai do comboio as orelhas entram em profundo choque térmico. Vou aquecendo enquanto subo as escadas em direcção à Sé Velha. Coimbra, neste ano de dois mil e um da graça de Deus, é sem dúvida uma linda cidade mas tudo parece fazer concorrência com a Sé. Os prédios têm um ar baço, mesmo os aparentemente mais novos, e por toda a cidade há uma atmosfera “vintage”...Bem, desde que não me saia de uma esquina um estudante a gorgolejar um faducho caquéctico (que isto do fado, apesar de gostar, é daquelas coisas que gosto de ouvir voluntariamente, nem sei explicar porquê). Acho que aquela coisa romântica do diletante e orgulhoso membro da academia coimbrã já aborrece um bocado...
Não se fiquem pela tradição rapazes e raparigas que esta não enche a barriga a ninguém.
. . .

Na cozinha dá-me vontade de comer tudo mas como sempre acabo invariavelmente a mastigar o mesmo, ou porque não tenho tempo ou por simples preguiça.
Imagino sempre um pequeno-almoço como sumos exóticos, queijos e doces variados, torradinhas suculentas e croissants fofinhos...Enquanto isso engulo uma chávena de cevada e duas ou três bolachas de água e sal, agarro numa banana (é mais fácil de descascar) e saio a correr porta fora.
. . .

Entro no conservatório e começo a distribuir os cumprimentos da praxe. Agarro no livro de ponto e na guitarra e subo apressado para a sala, o meu reduto e câmara de tortura. Entretanto o aluno chega muito antes do horário estabelecido e para minha irritação entra com a maior naturalidade na sala. Não sei porquê não me importo de ficar depois da hora mas detesto começar antes da mesma. Peço-lhe que aguarde roendo-me todo por dentro, ele parece notar e de um ápice recua rápida e estrategicamente deixando o leão na sua jaula.
"Não te preocupes que eu já te trinco..." Penso eu em murmúrio mental...
. . .

Mordo a língua ao mastigar uma chiclete que já se encontra em avançado estado de anemia. Primeiro a surpresa e depois aquela dor aguda e desagradável que todos tão bem conhecemos. Como tenho de direccionar a minha fúria cuspo-a energeticamente pela janela do comboio, só que esta realiza um caprichoso arco e bate no parapeito fazendo um "rebound" em direcção aos pés de uma velhota. Humilhantemente baixo-me perante o seu olhar acusador e com um gesto seco lanço-a à mão na direcção do anónimo exterior...
. . .

AAAAAAAAATCHIMM!!!!!
Não tenho tempo de colocar a mão à frente da boca e sinto que o espirro foi bastante produtivo. A reacção estranha do meu aluno/alvo não me deixa dúvidas...Desfaço-me em desculpas mas este parece ainda mais envergonhado do que eu enquanto apressadamente pede licença para ir à casa de banho já a caminho do objectivo.
Desolado, não posso deixar de pensar que há coisas que nunca deveriam sair de onde estão...

© Manuel Tavares

Algumas criações do autor :
Canal Youtube(ConcentusDuo, Os dias Passam)
MySpace (Concentus Duo, Cantus Animus)

Alabama Shakes





Hold On. I found you. Hom many more times. Going to the party.
Worryin' blues. Always alright. I aint' the same. Making me Itch.
Hang Loose. Rise to the sun. Be mine. Heavy Chevy. On your way.


Carlos Serra

foto de Carlos Serra in Nascimento Índico























desvão de um dia

o que somos afinal
senão o ténue sulco
de uma saudade doce 
e inútil
esquecida no desvão 
de um dia
a que (teimosos) 
chamamos vida?


foto de Carlos Serra in Dançando



















esta impotência que lês

sempre tive ciúmes dos poetas
que escrevem poemas-palimpsestos
poemas que são várias escritas sobrepostas
poemas que são a escrita de várias escritas
almas agarradas umas às outras
pela cumplicidade dos machambas da vida
e dos tempos que no tempo culimam
poemas que ficam marcados por uma data
pela bússola da memória do local do acto
pela vela de um barco plurinavegado

porque eu piloto da impoesia
arqueólogo da estética que não tenho
apenas sou capaz de escrever poemas
que são como uma sanduíche banal:
a parte de cima é o que escrevi
a parte de baixo o que não soube escrever
e o recheio é esta impotência que lês


foto de Carlos Serra in Estudos de Efeito

O hábito

O hábito enferruja as paixões,
a clandestinidade, essa reacende-as.
Lá onde pisas duas vezes a mesma vertigem,
lá mesmo envelheceste.
Procura o novo especialmente quando ele não existe.
Erige a subversão afectiva em teu hábito.
Sê a bandeira do espanto.
Tatua na alma a coragem jovem dos horizontes inexplorados.
Torna-te o ícone do impossível.

Nota: reparem como tudo isso é coisa de almanaque e, ao mesmo tempo, terrivelmente tentador.

sexta-feira, setembro 28, 2012

Magazine Gap - Slipstream



Every now and then you feel the heartache
Every now and then you count the cost
Every now and then you get caught out 
And find yourself a little lost

You see yourself a dislocated 
Small piece of a jigsaw
But venture out beyond your garden gate
There's a whole other world at your door

Chorus:
You know there's so much to do and so little time
And you take them one by one
With the ups and the downs
Before you know it you'll be heading for the setting sun
Caught in the slipstream, caught in the slipstream of life, and you go
Caught in the slipstream, caught in the slipstream of life, and you go 
And find your way home

You've got a tired, restless mind
That keeps you up at night
Well I know that you had your doubts 
It turns out you were right

You've got a long, long way to go
So I won't convince you to stay
You're picking up a stronger tailwind now
It's easier to walk away

Chorus

Where the sight and the sound feel right
And the battle of the soul has been won
And tomorrow you'll follow a new course and you'll find
Signs say it's time to move on

Caught in the slipstream, caught in the slipstream of life, and you go
Caught in the slipstream, caught in the slipstream of life, and you go 
And find your way home...

segunda-feira, julho 09, 2012

Manuel Rui



(1941)

Uma Onda e África

1
Uma onda
é amar-te e medo
ciúme deste mar
tan-tan do meu naufrágio
numa canoa de pétala
de acácia

2
Uma jangada
que me tragas feita
de troncos de palmeira
ou de um barco de negreiros
afundado
e dentro de uma concha
uma notícia

3
Amar-te é esta distância
e junto ao mar
senti-lo viajado
azul e com estrondo

4
Amar-te é uma fogueira
sobre a onda
sítio de uma lavra
de milho ou mandioca
na areia que me foge
sob a espuma

5
Amar-te é isto
com o teu perdão
não agarrar a onda
e mastigar-lhe o sal
que apenas sei
ter já beijado
a tua praia

6
Uma onda
que penso.
Outra em que reparo.
A mesma em que pensei
e que retorna ao mar.

7
Porque ficar a onda
— o impossível
(dizem que não havia
mar
remos de sol
nem barcos afundados).


(in A Onda; Centro Virtual Camões)


Sobre o autor(Manuel Rui, autor da letra do popular tema da música, "Meninos
de Huambo", nasceu em Nova Lisboa (Angola), em 1941. Licenciado
em Direito pela Universidade de Coimbra. Desempenhou diversos cargos
oficiais. Colaborou em publicações várias. Poeta, ficcionista e ensaísta).
É uma conhecida figura pública nacional e internacional.

Márcia e Jp Simões

quarta-feira, maio 30, 2012

Maria Bethânia Veloso



Calmaria. Sem mais, adeus. Vive. Velejava em você. A palavra. Estranhos. É o amorSegredoPra quê mentirJeito estúpido de amar. Grito de alerta. Tocando em frente.ReconvexoFera ferida. Sensível demais. Falando sério. Luar do sertão. Doce mistério da vida. Domingo. Sonho impossível. Casa branca.


Sobre o autor: A grande cantora da MPB, Maria Bethânia Viana Teles Veloso, que tem cerca de 26 milhões de discos vendidos, desbancada apenas por Xuxa, nasceu na cidade de Santo Amaro da Purificação, na Bahia, no dia 18 de junho de 1946. Filha de Zeca Veloso, conhecido como o ‘Onça’, renomado membro dos Correios e Telégrafos, e de Claudionor Viana, a querida guerreira Dona Canô, ela veio ao mundo em um sobrado localizado na Rua Direita, sobre a empresa da qual seu pai era funcionário.
Bethânia é irmã  caçula do não menos famoso Caetano Veloso, cantor reconhecido nacional e internacionalmente, e da poetisa Mabel Velloso. O mano Caetano foi quem escolheu seu nome, inspirado em uma valsa que, aos 3 anos de idade, já lhe chamava a atenção, Maria Betânia, de Capiba, cantada então por Nélson Gonçalves. A futura cantora consagrada desejava, no início, subir aos palcos não para cantar, mas sim para interpretar.


Aos poucos a garota entra em contato com o contexto cultural de Salvador – para onde se muda em 1960 -, atuando na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, frequentando as inúmeras exposições de artes plásticas, os mais variados shows musicais, o fervilhante ambiente estudantil. Era um período de intensa criatividade e de mudanças na cultura brasileira.


Caetano é chamado, em 1963, para compor a trilha musical da peça Boca de Ouro, do dramaturgo Nélson Rodrigues. Na cena inicial Bethânia tem a oportunidade de enfrentar pela primeira vez os palcos, cantando Na Cadência do Samba, de Ataulfo Alves. Ainda neste ano eles entram em contato com Gil, Gal Costa, Tom Zé e outros personagens que escreveriam a história da Música Popular Brasileira, inspirados por João Gilberto e pelo movimento que ele praticamente criou, a Bossa Nova.


Em 13 de fevereiro de 1965, durante a vigência da Ditadura Militar, a cantora teve a chance de substituir Nara Leão no espetáculo Opinião, concebido por Oduvaldo Vianna Filho, cantando a canção Carcará, de João do Valle. Sua participação intensa despertou a atenção da crítica e do público, e sua trajetória consagrada nasceu neste momento. Logo em seguida ela recebeu uma proposta de trabalho da gravadora RCA, futura Sony BMG. Ela se transformou em uma das intérpretes mais importantes da MPB, bem como seu irmão Caetano.


Maria Bethânia cresceu em um ambiente profundamente religioso, marcado pela cultura do candomblé. Ela cultua diversos santos e segue especialmente um ritual africano conhecido como Ketu. Muitas de suas canções são inspiradas neste cadinho cultural brasileiro, no sincretismo, na cultura popular, na tradição folclórica de seu país.


Em 1966 atuou nas montagens Arena Canta Bahia e Tempo de Guerra, dirigidos por Augusto Boal, além de participar em vários festivais musicais. Nos anos 70 ela integrou o célebre conjunto conhecido como Doces Bárbaros, ao lado de Gal, Caetano e Gil. O trabalho da banda, hoje considerado genial, foi então muito mal recebido pela crítica.


Ela foi pioneira entre as vozes femininas na venda de discos – Álibi, de 1978, teve mais de um milhão de cópias comercializadas; Mel, 1979, e Talismã, de 1980, alcançaram também altos índices de vendas. Seus trabalhos seguintes, Ciclo, de 1983, e A Beira e o Mar, de 1984, foram revolucionários ao optarem pelo estilo acústico.


Maria Bethânia festeja seus 25 anos de caminhada musical gravando, em 1990, o disco 25 Anos, que privilegia as diversas vertentes culturais do Brasil e traz a presença especial de diversos músicos famosos, entre eles Nina Simone, João Gilberto, Toninho Horta, Wagner Tiso, entre outros. Seu trabalho posterior, Olho d’ Água, de 1992, reflete uma viagem da cantora pelo universo das religiões. Em 1993 seu novo CD, As canções que você fez pra mim, vendeu mais de um milhão de cópias.


Maria Bethânia ao vivo, de 1995, foi a despedida da cantora do formato vinil; foi relançado mais tarde em CD, englobando as quatro canções que, por carência de espaço, haviam sido excluídas do disco anterior. A cantora continua mais ativa que nunca. Seus trabalhos mais recentes são Dentro do mar tem rio, de 2007, Omara Portuondo e Maria Bethânia ao vivo, de 2008, Encanteria e Maria Bethânia Naturalmente, ambos de 2009. Em 2008 ela conquistou o Prêmio Shell de Música, inédito para intérpretes.

Mais:
http://www.mariabethania.com.br/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Bethânia

José Fernando Lobo





Ela dorme
mas nao é a bela


Ela consome
pastilhas para a fome
e olha da janela
com olhos enormes
as histórias da rua

Ela dorme
mas nao é a bela
das histórias de encantar
ela consome a ilusao
mistura o pó
sumo de limao
a vida acida
e nao sabe como vai acabar

Ela dorme
mas nao é a bela
das series da televisao
que o mundo real
está mais bem disfarçado
que qualquer carnaval

Ela dorme
mas nao é a bela

ela espeta a agulha na veia
e os seus olhos sao janelas
onde a vida vazia
parece cheia
como uma lua.




segunda-feira, maio 21, 2012

Joe Cocker



Unchain my heart. Let's go get stoned. With a little help of my friends. Let it be.
A Whither Shade of Pale. You and i. A woman loves a man. Respect yourself.
When the night comes. Don't let me be misunderstood. Could you be loved.
Ain't no sunshine. Up where we belong. She's my lady. You are so beautiful.
That's all i need to know. Cry me a river. I who have nothing. The letter. One.
Heaven. Hell and Higwater. Out of the blue. The simple things. Forever changed.
A song for you. Something. Five long years. Sorry seems to be the hardest word.
Everybody hurts. Fellin' alright. Hitchcock railway. I'm in a dangerous mood.


Sobre o músico:


John Robert Cocker, OBE, (Sheffield, 20 de maio de 1944) é um cantor britânico de Rock influenciado pela soul music no início da carreira[1].
Ele começou sua carreira musical em sua cidade natal na Inglaterra, aos quinze anos de idade. Com o nome artístico de Vance Arnold tocou com The Avengers, depois Big Blues[1] (1963) e então a Grease Band (a partir de 1966). Em 1969 ele foi o astro convidado do programa The Ed Sullivan Show.
Seu primeiro grande sucesso foi a antológica canção "With a Little Help from My Friends", uma versão da música dos Beatles gravada com o guitarrista Jimmy Page. No mesmo ano ele apareceu no Festival de Woodstock, com um show consagrador, sobre o qual ele fala no livro Woodstock, do jornalista [Pete Fornatale] : "Tivemos uma reação emocionante quando tocamos With a Little Help from My Friends. Foi como um sentido maravilhoso de comunicação. Era o último número do show, eu lembro, mas senti que finalmente tínhamos nos comunicado com alguém".
Coker ainda conseguiu mais alguns hits com "She Came Through the Bathroom Window" (outra versão de uma música dos Beatles), "Cry Me a River" e "Feelin Alright". Em 1970 sua versão ao vivo do sucesso "The Letter" dos Box Tops, lançado na compilação Mad Dogs & Englishmen tornou-se sua primeira canção a entrar no Top Ten americano.
Nos shows Cocker exibia uma intensidade física incrível enquanto cantava, e sua presença no palco era frequentemente parodiada por John Belushi (houve até mesmo um dueto improvável quando Joe foi convidado especial do Saturday Night Live.)
No começo dos anos 70 ele teve problemas com drogas e álcool que acabaram atrapalhando sua carreira. Ele conseguiu, entretanto, se livrar e retornar nos anos 80, conseguindo grande sucesso até os anos 90 com as canções "Up Where We Belong", "You Are So Beautiful", "When The Night Comes" e "Unchain My Heart", tema da novela brasileira Sassaricando. É conhecido no Brasil por cantar o tema de abertura da série Anos Incríveis, exibido pela TV Cultura, TV Bandeirantes, Multishow e Rede 21, até voltar à TV Cultura. Em 2002 sua regravação da musica Never Tear us apart da banda INXS foi tema de sucesso da novela Coração de Estudante.
Em 2007, Joe fez uma participação especial em Across the Universe, longa-metragem musical de Julie Taymor, interpretando a música Come Together, dos Beatles.

Para continuar a ler, aqui.

Enrique Vila-Matas





"Às vezes, tenho a impressão de que surjo do que escrevi"

"As coisas, por exemplo, começavam todas pelo princípio e acabavam no final. Por isso, nesse tempo, para ele tinha sido uma grande surpresa, e nunca mais as esquecera, umas declarações do cineasta Godard onde dizia que gostava de entrar nas salas de cinema sem saber quando é que o filme tinha começado, entrar ao acaso em qualquer sequência, e ir-se embora antes do filme ter terminado. Seguramente, Godard não acreditava nos argumentos. E possivelmente tinha razão. Não era nada claro que qualquer fragmento da nossa vida fosse precisamente uma história fechada, com um argumento, com princípio e com fim."



Sobre o autor:
Enrique Vila-Matas (Barcelona, 1948) é um escritor espanhol. Nasceu em Barcelona em 1948. Em 1968 foi viver para Paris, auto exilado do governo de Franco e à procura de maior liberdade criativa. O apartamento onde se instalou foi-lhe alugado pela escritora Marguerite Duras. Durante esse anos subsistiu realizando pequenos trabalhos como jornalista para a revista "Fotogramas", e chegou a colaborar como figurante en Estoril num filme de James Bond. Vila-Matas publicou o seu primeiro livro, "La Asesina Ilustrada", em 1977, e desde então não mais deixou de escrever pois, segundo ele, "escrever é corrigir a vida, é a única coisa que nos protege das feridas e dos golpes da vida." Com a publicação de "História Abreviada da Literatura Portátil" começou a ser reconhecido e admirado no âmbito internacional, especialmente nos países latino-americanos, França e Portugal. As suas obras são uma mescla de ensaio, crónica jornalística e novela. A sua literatura, fragmentária e irónica, dilui os limites entre a ficção e a realidade. Desenvolveu uma ampla obra narrativa que se inicia em 1973 e que, até à data, foi traduzida para 32 idiomas. Actualmente é um dos narradores espanhóis mais elogiados pela crítica nacional e internacional




quinta-feira, maio 17, 2012

Filipe Chinita





Dia de Espiga


ramo de quinta-feira de espiga
assim lhe chamamos
antes de mais
três espigas
para que
pão haja
todo
o
ano
(e)
três ramos de oliveira
para que o azeite
indispensável
complemento
não nos
falte
três brancos malmequeres
para que perdure
a paz
(e)
outros tantos amarelos
para que nos calhe – já agora –
algum dinheirinho
três papoilas vermelhas
como desejo
de felicidade
e alegria
de
viver








Sobre o autor: 
Filipe Jorge Marques Chinita das Neves
Nasço em 11 de Novembro de 1955, na freguesia de nossa senhora do bispo, Montemor-o-Novo. Cresço na aldeia/vila de Escoural onde meus pais já viviam. Volto ao grande pátio da quinta dos pretos onde nasci, entre Montemor e Lavre, na adolescência. Estudo no colégio mestre de aviz, mas cresço entre proletários agrícolas. Escoural, Montemor e Évora constituem o triangulo entre o qual sou alentejano e me faço homem.
Habilitações: Antigo sétimo ano do liceu.
Anos 70 Curso de dois anos no Instituto de Ciências Políticas de Moscovo, de Ciência Política, Economia, Filosofia e Psicologia Social Marxistas. Curso de jornalismo e rádio no mesmo Instituto. Escrita e locução de programa de rádio interno, em língua portuguesa, emitido do Instituto.
Anos 80 Frequência do curso de Filosofia, Universidade de Letras de Lisboa.  Frequência dos cursos de Sociologia/Ciências da Comunicação, Uni. Nova de Lisboa. Cursilho de cinema, no IADE, com António Lopes Ribeiro.
Experiência profissional: Antes de abril Revisor do jornal Diário do Sul, durante curtos meses, ainda menor. Na Picardie (França/Amiens/Corbie) para onde fugira, para não fazer a guerra colonial, trabalho, durante cerca de 1 ano, numa fábrica de joalharia, aprendendo os primórdios do ofício.
Depois de abril Volto a Portugal nos primeiros dias de Maio filio-me no partido comunista português, na própria noite da chegada, a Évora, e logo me torno revolucionário a tempo inteiro, no Alentejo, de Maio de 74 até Novembro de 1980.
Anos 80 Passo os três meses seguintes em Bolbec/Normandia, mas decido regressar a Portugal, fixando-me em Lisboa/Alcântara, e depois sucessivamente em Odivelas/Cascais/Linda-a-Velha, onde ainda hoje resido. Colaboro com a Editora Crediverbo. Pesquiso, compro e vendo por conta própria, colecções de revistas e livros antigos. Torno-me um conhecedor de variados espólios alfarrabistas da cidade, fornecendo alguns dos melhores coleccionadores nacionais. 1981/82/83. A frequência de tertúlias literárias no Bairro Alto leva-me a conhecer vários escritores e intelectuais conduzindo-me até Michel Giacometti, com quem venho a colaborar episodicamente na organização dos seus famosos arquivos de Música Tradicional Portuguesa.
* Trabalho, depois, na Ass. Portugal-URSS na programação, organização e promoção de múltiplos eventos de carácter social, cultural e desportivo, nomeadamente, espectáculos de ballet, música clássica, popular e folclórica, debates, colóquios, exposições, semanas de cinema (no Quarteto), provas de atletismo, Torneios Internacionais de Xadrez, Andebol e Ginástica Desportiva. 1ª Corrida da Paz. Fundo a Secção de Xadrez e organizo provas de partidas rápidas com Grandes Mestres Internacionais. Tudo isto centrado em Lisboa, mas ocorrendo um pouco por todo o país, em colaboração com Associações, Instituições, Federações, Colectividades, Clubes e Autarquias. * Nos anos 80 publiquei vários poemas no Suplemento Cultural do jornal “O diário”. * Sou convidado para a organização e lançamento da Clínica do Homem, clínica pioneira em Portugal no domínio da Sexualidade, da Infertilidade (masculina e feminina) e da Impotência Sexual, exercendo as funções de Coordenador da actividade organizativa da clínica e de responsável pelo Marketing e Relações Públicas da mesma. Organizo com o Director Clínico e a Directora de Psicologia, o Seminário de Andrologia “A impotência Sexual”, no Hotel Penta. Recebi, entretanto, uma medalha de bons serviços, aquando dos 16 anos da Clínica de Santo António, na Reboleira, onde a Clínica do Homem estava sedeada. (1988/89)
Anos 90 Como resultante desta actividade constitui, organizei e lancei a Mare Nostrum, Clínica da Costa do Sol, SA, sita em Cascais, tendo exercido, cumulativamente, as funções de adjunto do Conselho de Administração e Director Administrativo e Comercial, sendo responsável pelo Marketing e Relações Públicas da mesma. (1990/91)
Constituição e organização da Olímpico, Estratégias e Marketing. Lda, cujo objecto seria o de promover o sponsor de iniciativas autárquicas, (em particular com a CM de Lisboa) associativas e empresariais de carácter desportivo, cultural e artístico, sendo, ainda assim, decisiva para a montagem da 1ª Meia Maratona de Lisboa, passo primeiro para a hoje, mundialmente reconhecida Maratona. (1991/92)
Constituição, organização e lançamento da “Fio de Prumo Designers Lda”, mais tarde “Fio de Prumo Design Global, Lda” empresa que deteve, praticamente, desde a sua constituição, um papel de vanguarda na dinâmica do design português, não só pelas exposições e eventos multidisciplinares, que organizou nos seus espaços de Lisboa (Porto e Paris). O Project Room, da Fio de Prumo, com a colaboração de Luís Serpa, e osCenários de Design com a participação dos melhores profissionais do sector e de inúmeras figuras públicas “fizeram história”. Tais eventos eram, na altura, os, de longe, mais largamente concorridos, na capital e no Porto, pelo público amante do design.
-realce para o papel editorial que assume editando obras dos mais proeminentes designers e arquitectos portugueses, através da editora “de fio a pavio”em que colaboram Eduardo Souto Moura, Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, Carrilho da Graça, Santa-Rita, Isabel Dâmaso, Cristina Ataíde, Ângelo de Sousa, Safira Serpa, Paulo Coelho, Helena Subtil, Laura Soutinho, Beatriz Vidal, Nuno Lacerda Lopes, Ana Vasconcelos, José Manuel Carvalho Araújo, Carlos de Oliveira, José Pedro Croft, Luís Narciso, Pedro América, etc. – constituição de uma outra editora, de design de moda e têxteis, com Olga T. Rego, designada  Fio de Trama.-organização do Concurso de Jovens Designers resultante da colaboração da  Fio de Prumo com a revista Casa Claúdia e o Centro Português de Design. – participação com peças da Fio de Prumo em Exposições Internacionais de Design no estrangeiro, representando Portugal, a convite do ICEP. – a Fio de Prumo possuía, também, um Atelier de Comunicação e Design Visual, made in fio, tendo construído variados logos e imagens, nomeadamente, da ExpoLoures, do Forme 93 (do Instituto do Emprego e da Formação Profissional), da Stivali, da Companhia Nacional de Bailado, da linha de espectáculos de Ballet, da Lisboa 94, Capital da Cultura, do restaurante Casa da Comida, no Tagus Park, etc (1993/99). – Durante o tempo de duração da Fio de Prumo foram publicados na imprensa da especialidade, mas não só, nacional e estrangeira, inclusive no Japão, artigos evidenciando o seu papel de vanguarda.
Nos anos 96/97, fui colunista, com Jorge Vale (do restaurante Casa da Comida) da revistaMáxima Interiores, com a coluna Quatro Estações, sobre gastronomia, as estações do ano e as diversas regiões do país. Em Abril de 1998, publicámos para uma edição especial do Diário de Notícias, o texto “Memórias e afectos da Cozinha Tradicional Portuguesa”.
Colaboração pessoal com a FIL no lançamento da 1ª edição da Lisboa Design.
Tentativas de dinamização de uma Associação Empresarial do sector, sem resultados.
Montei, em 1999, com o arquitecto Mário Sua Kay, a pedido deste, uma equipa multidisciplinar de designers portugueses, que concorreu através da agência J. Walter Thompson ao concurso internacional para a criação da imagem global da ONI.
Decido regressar ao Alentejo no fim de 99, passando a viver entre Lisboa, o Alentejo e a Praia Grande.
Anos 2000 Trabalho com a CM de Montemor-o-Novo, desde 13 de Março de 2000, na criação da respectiva imagem de marca, desdobrada depois pelas 10 freguesias e pelas diversas frentes de trabalho autárquico, articulando uma linguagem comunicacional que expressa de forma clara a identidade do concelho.
- escrita e edição do livro Montemor-o-Novo levantado do chão, passado presente futuro. – Foi, entretanto, editado aquando da sessão solene dos 30 anos do Poder Local Democrático, o 1º volume do Livro Montemor-o-Novo, 30 anos de Abril. E mais tarde o 2º volume.
- nos 30 anos de Abril, ponho na rua o projecto “a poesia está na rua” – criação de rede de pequenos totems de sinaléctica informativa no centro histórico. – criação da rede de totems por todo o concelho, coma a assinatura de Montemor-o-Novo, levantado do chão; Montemor-o-Novo, cidade levantada e principal; e com as respectivas assinaturas das 10 freguesias – criação de boletins e agendas culturais e desportivas municipais, bem com da actual mor+magazine e respectiva linha de comunicação.
- criação do nome e logo do projecto montemor, pedra a pedra.
* Concepção do espaço de memória levantado do chão/sala de leitura e multimédia José Saramago, em Lavre, e criação do respectivo logo. Criação de exposição nos 25 anos do lançamento do livro levantado do chão, que visitou outros concelhos. Organizo, com a respectiva junta e câmara municipal, em Lavre e Montemor sessões com os professores Victor Viçoso e Maria Lúcia Lepecki para assinalar a data, bem uma sessão de leitura do mesmo com Gracinda Nave e Rogério Samora. Em Abril de 2008, José Saramago, acompanhado de Pilar e de José Sucena, visita o espaço estando pela última vez, em Lavre e Montemor. Passo a colaborar com a Fundação José Saramago. Elaboro com a estrutura da fundação, em particular, com a sua neta, o roteiro de levantado do chão, que fica alojado no sítio e blog da Fundação. Existe um projecto de concretizá-lo no terreno e editá-lo em livro. A exposição de levantado do chão, agora editada pela Fundação, continua a circular pelo país. Em 2009, colaboro com a Fundação, no reencontro do texto de João Domingos Serra, e com Rita Pais e Manuel Gusmão, na fixação do tal documento incomum, assim chamado por José Saramago, e que mais lestamente o levará à escrita do seu/nosso levantado do chão.
* Trabalhei para outros clientes particulares tendo concretizado no concelho a imagem dos turismos rurais do Monte do Chora-Cascas e da Herdade da Serrinha. No distrito trabalhei num projecto com dois departamentos da Universidade de Évora e no Évora Distrital Digital. Trabalhei, em 2003, na criação da imagem e assinatura do concelho vizinho de Vendas Novas, e seus vários desdobramentos por grandes áreas de actuação. – elaboração de exposição e respectivo folheto explicativo. – edição duma 1ª agenda municipal. – criação do livro vendas novas, abril colorido 30 anos depois, com desenhos das escolas do concelho, em 2005. – brochura e folheto turístico com a nova imagem e colaboração na abertura do novo Posto de Turismo. – investigação, escrita e criação do 1º volume do livro Vendas Novas, Rumo ao Futuro, em 2006, e posteriormente do 2º volume. – investigação, escrita e criação do livro “a questão da saúde, o povo de vendas novas como protagonista”.
Continuei a trabalhar no sector privado em outros projectos junto de várias instituições e empresas em Lisboa, Almada, Tomar, etc.
* “Pretensões” ditas literárias/ ou editoriais. Em 2004, contribuo para e edição pelo MDM do livro Que o exemplo não se perca, da poetiza Lisete Pinto de Sá.
Em 2005, como forma, de em Novembro, comemorar os meus 50 anos! pretendia editar o livro escrito em 77/78  3º andar jardim suspenso. A pessoa a quem o voltei a mostrar e a quem era dedicado, a psicóloga Maria Clementina Diniz, deu-me permissão para o fazer (apesar de, mais uma vez, nada ter feito para além do seu design e montagem gráfica). Mas voltando a tomar contacto com variados textos organizados em livros vários, que continuavam em suspenso, sem editora e sem que a procurasse, a Maria exigi-me que “antes dos nossos textos amorosos, publica, por favor, os políticos que são bem mais urgentes e necessários para contar a revolução no teu Alentejo e revigorar a militância”. “Entrega o primeiro deles gente povo todo o dia ao nosso partido, porque é ele que os deve publicar”. Ela telefonou ao José Casanova, como “a pessoa certa para tratar da questão” e eu fui à Soeiro levar-lho em mão. O livro andou perdido, segundo parece devido à venda da Caminho. Os camaradas tem muito que fazer, dizia-me ela, ante a minha impaciência. “Espera. Tem calma”.
Entretanto, a Maria morria inesperadamente em 8 de Março de 2007, sem que houvesse resposta alguma sobre qualquer interesse na edição do mesmo. De 3 a 28 de Outubro desse ano, o sector intelectual da dorl leva a cabo, no museu da cidade, a exposição “obras do acervo de arte do sector intelectual de lisboa do Partido Comunista Português” que ela tinha entre mãos. As suas duas filhas Isabel e Ana Filipa pedem-me um texto, que se virá a chamar “sonhar de pés fincados em terra” (nota explicativa) que abrirá o respectivo catálogo e que será, também, guião de um pequeno vídeo/filme de homenagem à Maria, fabricado por Helena Alves, alentejana.
Em 2008, contribuo para o lançamento pelas Edições Colibri dos livros O Dilema do professor, formar para quê, de Ana de Almada Saldanha, em Setembro, e no princípio não foi o verbo e outros textos de psicologia, de Maria Clementina Diniz, em Outubro.Ainda em 2008, após mais uma insistência, o meu texto reaparece, e a Editorial «Avante!» resolve editar gente povo todo o dia, texto escrito no essencial durante os anos em que fui revolucionário a tempo inteiro no Alentejo, e que em 81/82, já se encontrava pronto para edição, apesar de nunca ter procurado fazê-lo. O livro sairá em Fevereiro de 2009. Peço para o mesmo, um posfácio a Manuel Gusmão, pois, entretanto, havia descoberto, entre os meus papéis, que ele já o havia tido entre mãos em 81/82. Retomando os nossos contactos iniciados em 1975 no nosso Alentejo passamos a   encontrarmo-nos regularmente para estar, almoçar e falar, até porque o Manuel faz o favor de me acompanhar a apresentar o gente povo, em quase todos os sítios em que foi lançado.
Na base de um texto escrito no essencial em 1979 “negro grão pétreo/negro e pétreo nódulo” sobre o assassinato de casquinha e caravela, gente da minha aldeia, vou insistindo se não quer trabalhá-lo comigo, actualizando-o e emprestando-lhe o seu cunho de poeta maior, de modo a dele fazermos obra digna de assinalar os 30 anos dessa tragédia, acontecida em 27 de Setembro de 1979. Além do mais seríamos dois alentejanos a falar de dois outros já mortos, um livro a quatro mãos em que não se saberia onde estaria a escrita de cada um. De apenas dramatizador do texto o Manuel foi cedendo e na sua enorme generosidade passou a co-autor do mesmo. Sem ele não haveria este novo objecto literário. Um gesto comunista como uma amiga do Manuel depois qualificará. E assim foi, conseguimos fazê-lo! E a «Editorial Avante!» resolveu editá-lo. Cantata Pranto e Louvorem memória de casquinha e caravela, via, pois, a luz do dia, em 1ª edição, em Setembro de 2009. A 2ª edição sairia ainda em Dezembro.
A Fundação Saramago, edita, em 2010, antes da morte de José, e contando com a sua colaboração no respectivo prefácio o livro de João Domingos Serra, que sai, por sugestão do próprio Saramago, com o título Uma família do Alentejo. O livro conta, também, com um posfácio de Manuel Gusmão, que se debruça sobre o texto e o seu papel na génese de Levantado do Chão.
No 1º de Maio de 2010, para festejar o 120º aniversário do mesmo, a «Editorial Avante!» edita a colectânea de poemas MAIO, trabalho, luta incluindo nela um extracto de De luto desfilamos (da referida Cantata).