segunda-feira, fevereiro 27, 2012

José Luandino Vieira




"Quando o trovão rasgou o céu da cidade e a grande chuva começou a cair, Domingos Xavier acordou assustado. Deitado de barriga, sentindo tudo molhado, gemeu com as dores que lhe percorriam no corpo, tentou apalpar com os dedos grossos os lábios inchados. A dor foi tão grande que sentiu a cabeça cair e bater contra o chão molhado. Lá fora a chuva caía em bátegas fortes em cima do musseque e da terra vermelha se levantava aquele cheiro bom que lhe refrescava nos pulmões. Depois, o bater sereno da chuva no quintal mergulhou-lhe  novamente na sonolência, sentia os rios de água crescerem debaixo do seu corpo, por toda a cela, correrem por todo o musseque, se transformando em largas e fortes águas no caminho do grande rio, lá em baixo, lá mais para baixo...
Lá em baixo, o Kwanza rugia, zangado, adivinhando a boca de betão que esperava para lhe engolir, obrigando-lhe a furar o morro num caminho de poucas centenas de metros, substituindo o leito milenário que tinha cavado, por suas águas, na rocha dura ou nas areias quentes. As águas falavam suas fúrias, agora impotentes, recordando os rápidos para lá do muro, secos no sol, criando musgos nas poças de água parada, finalmente quieta. O cotovelo onde o Kwanza se atirava nos últimos gritos das suas águas, correndo indomáveis entre rochas desde o planalto onde nascia, morrera. Secava agora, no sol, suas paredes de granito. E lá em cima, nos morros, casas de alumínio e de cimento, barracões e escritórios, centrais eléctricas de potentes díseis fumegantes, escarneciam ferozes do colosso desviado. Para lá da saída do túnel de derivação, ás águas se suicidavam, subindo muitos metros no ar e deixando-se depois abater lá em baixo, nas pedras, nos muros de defesa que os tractores construíam em suas margens. mas logo-logo, entre árvores e capim, ribeiros que ele conhecia tão bem, pequenos fios de água enterneciam de novo o velho colosso; vinha a recordação de caminhos percorridos de longa marcha, do verde planalto do Huambo, dos amigos recebidos no seu leito, e a sua fala se adocicava, o rugir desaparecia, ronronava só em frente do Dondo, um sorriso se alargava já na sua cara, mais para baixo, para a Muxima, caminho do mar. "


in A vida verdadeira de Domingos Xavier

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