segunda-feira, março 05, 2012

David Mourão Ferreira





Do Tempo ao Coração

E volto a murmurar
 Do cântico de amor gerado na Suméria às novas europutas
 Do muito que me dás ao muito que não dou
 mas que sempre conservo entre as coisas mais puras
 De uma genebra a mais num bar de Amsterdão
 a não perder o pé numa praia da Grécia
 De tantas tantas mãos que nos passam pelas mãos
 a tão poucas que são as que nunca se esquecem
 De ter visto o começo e o fim da Via Ápia
 De ter atravessado o muro de Berlim
 De outros muros que não aparecem no mapa
 De outros muros que só aparecem aqui ao barro deste céu
que te modela os ombros ao sopro deste céu que te solta o cabelo
 ao riso deste céu que vem ao nosso encontro
 quando sabe que nós não precisamos dele
 Da pertinaz presença
 E da longevidade do corvo do chacal do louco
 do eunuco ao rouxinol que morre em plena madrugada
 à rosa que adormece em caules de um minuto
 Do que foi noutro tempo a saúde no campo
 à lepra que nos rói a paisagem bucólica
 Do tempo ao coração minado pelo cancro
 Dos rins ao infinito incubado na cólera
 Do tempo ao coração mas com pausa na pele
 como «Roma by night» entre dois aviões
 como passar o Verão numa vogal aberta
 como dizer que não que já não somos dois
 Dos rins ao infinito
 A este que não outro
 Ao que rola dos rins
 Ao que vai rebentar-te
 na câmara blindada e nocturna do útero
 E nos transfere o fim para um pouco mais tarde
 Da curva de entretanto à entrada do poço
 De soletrar em mim a ler nas tuas mãos
 como é rápido e lento e recto e sinuoso o percurso
que vai do tempo ao coração.


  in Obra Poética
  foto retirada da web

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