segunda-feira, abril 16, 2012

Lobo Duarte




foto de Francisco Oliveira in Batente de Mão


Os meus gastos dias

Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta álcool no copo e não posso desabafar no livro, não posso vingar-me completamente nas palavras por a solidão ter agarrado tempo de mais a minha juventude. Os meus dias, os meus gastos dias levados como um galope de cavalo que revolve a terra e que mostra em segredo a distancia de eu não ter corpo e de já não ter pensamento. Eu fico um pouco alegre por ninguém saber a idade do rio. Nunca ninguém pergunta sobre a idade dele, nalgum romance pode surgir um por de sol e um homem que se apaixona e não arrasta a margem dos anos para o seu peito enamorado e jovem. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta salpicar o rosto de água salgada e fumar o amarelo cigarro enquanto o fumo è uma nuvem ou um pássaro doente que me olha enquanto eu olho o diário. Estou com o rio, não estou perto dele, na verdade não estou com ele, mas falo-lhe quando os homens ficam fechados e as mãos não se abrem, mesmo que não esteja com ele, ele dá-me água e limpa-me os meus olhos tristes e mesmo que tenham sido muitas vezes aquela è a vez em que eu sou criança e sinto vontade de mexer os braços da vida e de ser tão completo como uma cor a germinar o céu. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que por mim passam as estações e eu deixei de inventar aquela que todos os dias me amava quando eu não acreditava e agora não acredito nas palavras mas quero o fogo e as pessoas pois tenho frio e è melhor um pouco de calor, è melhor quando aceito este momento e consigo chorar porque o rio não me faz perguntas e o vento atira-me para a terra quando já não consigo dançar com a vida. Agora que os meus gastos dias vão se aproximando eu tento uma longa viagem, podem as estrelas acompanhar-me e podes tu lembrar num relance de olhos que a eternidade è o livro que fica e a gota do vinho que resta no copo e tu escutarás a mesma musica e do resto fica a sombra e o pó dos caminhos selvagens. Os meus dias os meus gastos dias, já não tenho sangue para verter mas se ainda puder ouvir vidas de encantar e utopias de não sentir morrer. Ò meu amigo ò minha amiga deixa-me o vinho e o tabaco e o perfume, só isso sobre a terra, quero renascer e se a chuva cair que o rio me proteja e a noite tenha o direito de me abandonar. Os meus dias, os meus gastos dias, agora que me falta álcool no copo e não posso desabafar completamente no livro, nem vingar-me nas palavras que fazem o ódio nos homens. Ò meu amigo ò minha amiga deixa-me o vinho ou umas asas para voar se eu tiver coragem para me lançar da janela infinita. Os meus dias, os meus gastos dias, dias gastos a procurar e a esconder, dias em que se tentou fazer de novo o amor e o teu corpo febril ficava no meu e havia um espaço entre o desejo que eu tinha e o teu modo de experimentares a mão da natureza e a minha mão no teu sexo. Os meu dias, os meus gastos dias, a cama onde ainda cheiro o teu corpo que espera e nós agora juntos na mesma esperamos que seja o momento de ficarmos dissolvidos no mesmo coração, no mesmo habito de entrelaçar nos dedos as nossas seguras duvidas do amor e da vida e da morte absoluta que è o prazer de tudo isto. Os meus dias, os meus gastos dias agora que me falta ver um cão a dormir no livro sujo e o vagabundo a vomitar nas escadas do museu de arte contemporânea, agora que o cão me ama e o vagabundo não me julga e agora que ainda há álcool no copo e a fogueira ainda está acesa, Ò minha amiga ò meu amigo peço as vossas mãos, não as vossas palavras, mas as vossas mãos, assim talvez a minha viagem e o meu segredo possa ficar entre mim, vocês e o rio.

Lobo Duarte

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