quarta-feira, outubro 10, 2012

Teoria Geral do Esquecimento


A entrevista foi postada pela Mercedes Lorenzo, uma das editoras da revista de arte e cultura brasileiras REBOSTEIO (contém nota sobre a poesia de Christiana Nóvoa, poetisa brasileira), entrevista essa feita a José Eduardo Agualusa, sobre a Teoria Geral do Esquecimento que conta das dores de uma portuguesa numa Angola em vésperas da
Independência e dos seus dribles para sobreviver, de memória sobre o medo, o absurdo do racismo e xenofobia, sobre amor e redenção. A esta Teoria, seguir-se ão, quiça, as Nuvens Ilustradas - de Lisboa - como próximo cenário literário. A merecer leitura

Pelo Sonho de escrever um romance traduzido





domingo, outubro 07, 2012

Manuel Tavares

foto de Melody no Flicr


Há coisas que nunca deveriam sair de onde estão.


O olhar nem sempre revela
Tal como o pensar
Nem sempre reflecte
Coisas da razão.













Saí de casa. A rua adensa-se a cada passo. Olho os rostos que avançam apressados, não sei para onde vão...Porque correm eles todos os dias? O que pensam nas horas mortas nos comboios, nos autocarros, nos automóveis?

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Volto atrás. Dentro de casa vou deixando pedaços de mim. No quarto de banho encontro um eu matinal, na cozinha os horizontes "abrem-se" para ouvir notícias cada vez mais iguais. O quarto de dormir esse continua parado, com aquela nuvem espessa e protectora de muitos sonhos, muitos cansaços, muitas carícias, muitas promessas mas, sobretudo, muito, muito sono.
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Tropeço a ver o jornal num quiosque. Não sei que procuro naqueles pacotes de letras e imagens insidiosamente colocadas para chamar a nossa atenção...Corro para o "guichet" e compro o bilhete. Oiço uma voz roufenha "Inter-regional para Coimbra na linha 2", e não sei porquê apresso o passo mesmo sabendo que ainda faltam cinco minutos para fazer apenas vinte metros... "Calma", digo eu para mim próprio, e com este remédio consolo-me pensando que afinal sempre vou tendo algum auto-controle perante as minhas irritantes reacções involuntárias.
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Cinco minutos. Foi quanto disse a mim mesmo que ia demorar o meu duche. Ah! Mas a água quentinha a descer-me pelas costas como mil mãozinhas de fada cantando "Só mais um bocadinho". Coloco a água mais fria para "me por fino" e saio triunfante pensando nesta pequena vitória espartana, ascética como o "raio que o parta". Quantos de vocês conseguem colocar água gelada no fim do banho em pleno inverno!? Ah!? Pois, pois... Cobardolas...
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Está um frio de rachar em Coimbra. Mal sai do comboio as orelhas entram em profundo choque térmico. Vou aquecendo enquanto subo as escadas em direcção à Sé Velha. Coimbra, neste ano de dois mil e um da graça de Deus, é sem dúvida uma linda cidade mas tudo parece fazer concorrência com a Sé. Os prédios têm um ar baço, mesmo os aparentemente mais novos, e por toda a cidade há uma atmosfera “vintage”...Bem, desde que não me saia de uma esquina um estudante a gorgolejar um faducho caquéctico (que isto do fado, apesar de gostar, é daquelas coisas que gosto de ouvir voluntariamente, nem sei explicar porquê). Acho que aquela coisa romântica do diletante e orgulhoso membro da academia coimbrã já aborrece um bocado...
Não se fiquem pela tradição rapazes e raparigas que esta não enche a barriga a ninguém.
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Na cozinha dá-me vontade de comer tudo mas como sempre acabo invariavelmente a mastigar o mesmo, ou porque não tenho tempo ou por simples preguiça.
Imagino sempre um pequeno-almoço como sumos exóticos, queijos e doces variados, torradinhas suculentas e croissants fofinhos...Enquanto isso engulo uma chávena de cevada e duas ou três bolachas de água e sal, agarro numa banana (é mais fácil de descascar) e saio a correr porta fora.
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Entro no conservatório e começo a distribuir os cumprimentos da praxe. Agarro no livro de ponto e na guitarra e subo apressado para a sala, o meu reduto e câmara de tortura. Entretanto o aluno chega muito antes do horário estabelecido e para minha irritação entra com a maior naturalidade na sala. Não sei porquê não me importo de ficar depois da hora mas detesto começar antes da mesma. Peço-lhe que aguarde roendo-me todo por dentro, ele parece notar e de um ápice recua rápida e estrategicamente deixando o leão na sua jaula.
"Não te preocupes que eu já te trinco..." Penso eu em murmúrio mental...
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Mordo a língua ao mastigar uma chiclete que já se encontra em avançado estado de anemia. Primeiro a surpresa e depois aquela dor aguda e desagradável que todos tão bem conhecemos. Como tenho de direccionar a minha fúria cuspo-a energeticamente pela janela do comboio, só que esta realiza um caprichoso arco e bate no parapeito fazendo um "rebound" em direcção aos pés de uma velhota. Humilhantemente baixo-me perante o seu olhar acusador e com um gesto seco lanço-a à mão na direcção do anónimo exterior...
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AAAAAAAAATCHIMM!!!!!
Não tenho tempo de colocar a mão à frente da boca e sinto que o espirro foi bastante produtivo. A reacção estranha do meu aluno/alvo não me deixa dúvidas...Desfaço-me em desculpas mas este parece ainda mais envergonhado do que eu enquanto apressadamente pede licença para ir à casa de banho já a caminho do objectivo.
Desolado, não posso deixar de pensar que há coisas que nunca deveriam sair de onde estão...

© Manuel Tavares

Algumas criações do autor :
Canal Youtube(ConcentusDuo, Os dias Passam)
MySpace (Concentus Duo, Cantus Animus)

Alabama Shakes





Hold On. I found you. Hom many more times. Going to the party.
Worryin' blues. Always alright. I aint' the same. Making me Itch.
Hang Loose. Rise to the sun. Be mine. Heavy Chevy. On your way.


Carlos Serra

foto de Carlos Serra in Nascimento Índico























desvão de um dia

o que somos afinal
senão o ténue sulco
de uma saudade doce 
e inútil
esquecida no desvão 
de um dia
a que (teimosos) 
chamamos vida?


foto de Carlos Serra in Dançando



















esta impotência que lês

sempre tive ciúmes dos poetas
que escrevem poemas-palimpsestos
poemas que são várias escritas sobrepostas
poemas que são a escrita de várias escritas
almas agarradas umas às outras
pela cumplicidade dos machambas da vida
e dos tempos que no tempo culimam
poemas que ficam marcados por uma data
pela bússola da memória do local do acto
pela vela de um barco plurinavegado

porque eu piloto da impoesia
arqueólogo da estética que não tenho
apenas sou capaz de escrever poemas
que são como uma sanduíche banal:
a parte de cima é o que escrevi
a parte de baixo o que não soube escrever
e o recheio é esta impotência que lês


foto de Carlos Serra in Estudos de Efeito

O hábito

O hábito enferruja as paixões,
a clandestinidade, essa reacende-as.
Lá onde pisas duas vezes a mesma vertigem,
lá mesmo envelheceste.
Procura o novo especialmente quando ele não existe.
Erige a subversão afectiva em teu hábito.
Sê a bandeira do espanto.
Tatua na alma a coragem jovem dos horizontes inexplorados.
Torna-te o ícone do impossível.

Nota: reparem como tudo isso é coisa de almanaque e, ao mesmo tempo, terrivelmente tentador.